Fragmentos

Belchior (1947-2017)

Não era muito chegada nas músicas do Belchior. Quer dizer, torcia o nariz para as melodias pobres, os arranjos manjados, o violãozinho chinfrim que ele tocava.  Mas tinha a poesia. Grandiosa, refinada, crítica, profunda. E tinha a pessoa dele, que conheci depois, um cara sério, gentil, educado, cultíssimo. Que lia muito, pensava demais, traduzia livros do espanhol, do francês e do italiano. E ainda desenhava e pintava aquarelas muito interessantes.

Com a sua morte, fiquei sem saber como escrever aqui sobre ele, até que li o texto abaixo, do critico musical Jotabê Medeiros. Achei perfeito, era o que gostaria de ter escrito. Por isso copio abaixo, dando os devidos créditos e louvações…

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BELCHIOR ANUNCIOU EM VERSOS O DESEJO DE DESAPARECER…

Jotabê Medeiros
Colaboração para o UOL

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Antonio Carlos Belchior comandou uma rebelião silenciosa na música popular brasileira. Uma rebelião contra os totens da geração anterior (Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil), contra as limitações impostas pela ditadura policial, contra a diminuição do papel libertário da juventude na afirmação do futuro, contra os horizontes curtos da poesia musical de deglutição fácil.

Ex-monge capuchinho, ex-estudante de medicina, ele trouxe uma ética rígida de comprometimento e romantismo para a nossa literatura musicada, e ninguém jamais irá tão longe quanto ele, nunca. Primeiro, porque Belchior foi tão distante em seu questionamento que optou pela própria desaparição como sua derradeira obra.

De recursos musicais parcos, Belchior apareceu para a música em 1967, em Fortaleza, no Ceará, arregimentado na faculdade de medicina pelos amigos talentosos (Jorge Mello, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Fagner, Amelinha) para as fileiras da música. Tocava um violãozinho limitado, conhecia Luiz Gonzaga e Cego Aderaldo, assim como Ray Charles e Beatles. Tinha, contudo, um componente delirante: a filosofia católica, que tinha estudado como frade no Mosteiro de Guaramiranga entre 1963 e 1966.

Seus embates entre a culpa católica e o visionarismo libertário fizeram dele o maior poeta de sua geração. Como Rimbaud e William Blake, que ele amava, atravessou territórios entre a alma e o corpo para forjar sua obra, que é inigualável.

Belchior viveu em festas faustosas e morou em canteiro de obras. Fascinou Elis Regina e também Raul Seixas. Enfrentou a exceção democrática com os versos mais duros e guerrilheiros que a MPB conheceu, mas que eram tão finos que os censores nem entenderam direito. Debateu com Caetano Veloso e foi ao Congresso em busca de melhores condições de pagamentos de direitos autorais.

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Seus discos-chave são os três primeiros: “Mote & Glosa“, “Alucinação” e “Coração Selvagem“. Nesses três discos, exercitou as qualidades que o distinguiriam para sempre. “Mote & Glosa” é a experimentação mais vanguardística aplicada à tradição regional, ao pó do sertão. “Alucinação” é a visão do Dylan caboclo, é a transcriação da folk music em uma estrutura de romantismo suburbano. “Coração Selvagem” é o manifesto libertário, o rompimento com as amarras sociais.

Belchior viveu entre o Rio e São Paulo, estabelecendo-se nesta última. Foi o primeiro a fazer uma canção como se deve para a metrópole que abraçou, a paulicéia. Chama “Passeio“, está no seu primeiro disco. Produziu discos nos Estados Unidos (“Todos os Sentidos” e “Era Uma Vez um Homem e o Seu Tempo“), brigou de faca com seu
grande antípoda musical, Fagner, amou muitas mulheres e foi cortejado como sex symbol pela indústria musical. “Mas a mulher, a mulher que eu amei, não não pode me seguir, não”. Almejou tornar-se independente da indústria e construiu suas próprias gravadoras (Paraíso Discos) e estúdio (Camerati). Fracassou.

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Não houve artista mais fora dos trilhos do que Belchior na música brasileira. Foi o grande outsider da canção, até Raulzito era mais gregário do que ele. Fez canções concretistas em 1967 e 1968. Falou de psicanálise, futebol, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Dante Alighieri, Drummond. Em suas canções, nada disso soa blasé, forçado, é tudo orgânico, macio, encaixado. Belchior nunca foi papudo – são famosos os versos de “Velha Roupa Colorida” nos quais ele cita Poe, Beatles e Luiz Gonzaga de uma tacada só.

A grandeza de sua poesia movimentou teses de doutoramento, acendeu a chama em artistas jovens do Brasil todo, que abraçava como parceiros, como Gracco (compositor de “Coração Alado“) e até artistas de outros quadrantes, como Arnaldo Antunes e Aguilar, de São Paulo. Mas, em toda sua trajetória, o desejo de desaparecer, o inconformismo com os rumos da vida coletiva e também a individual, marcavam seus versos.

Cumpriu-se uma profecia. Como ele disse, na canção “Depois das Seis” (do disco “Objeto Direto“):

“Até logo. Eu vou indo.
Que é que eu estou fazendo aqui?
Quero outro jogo
Que este é fogo de engolir.”

 

PS – Lindo de ver também é a entrevista que ele deu à TV Cultura de SP, ao programa MPB Especial.