Fragmentos

Driblando o inferno astral…

Hoje passei o dia descalça e de vestidão.  Não fui na rua, porque chovia muito. Mas fiz um monte de coisas: lavei o cabelo, passei um creme francês muito cheiroso, mas não penteei. Arrumei as gavetas do armário e do criado mudo, separei uma porção de sapatos que preciso passar adiante, pintei de vermelho as unhas dos pés. Depois comi bolinhos de arroz com molho de gergelim e uma salada de cenoura com passas, isso tudo sem usar o talher. Troquei a begônia rosa de vaso, e encontrei muitas lagartas na palmeirinha, que ódio de lagartas. Isso tudo ao som da minha playlist no spotify.

Inventário da minha gaveta do criado mudo (a de cima) – cinco lápis de grafite novos, daqueles que tem borracha, ainda sem ponta. Uma caneta hidrocor de ponta fina roxa.  Um coração grande de prata filigranada, artesanato peruano, com a inscrição ‘mi amor’. Um óculos de grau sem a haste direita. Cinco contas pagas com vencimento em 2016.  O livro IChing com prefácio de Jung, envolto em tecido roxo com um laço de fita dourado. Dois colares de contas, um azul com medalhinhas e um amarelo e branco. Um vidro de cola polar pequeno. Colírio antibiótico, herança da cirurgia de catarata. Dois vidrinhos com óleo essencial: um de lavanda e outro de patchouli. Um marcador de livro em forma de rosa. Seis elásticos coloridos de amarrar cabelo. Uma pomada contra picadas de insetos e alergias. Uma latinha de tictac sabor laranja á meio melequento. Uma maquina fotográfica miudinha, sem o cabo de carregar a bateria. E um copinho de vidro roxo com vários colares prateados dentro. Tem mais duas gavetas carregadas de coisas, não faço ideia do que tem lá dentro…

Li hoje em algum lugar que na língua falada pelos Maias, na America Central, não havia separação entre sujeito e objeto. Diziam: “Eu bebo a água que me bebe”, “Eu vejo aquilo que me vê” e cumprimentava-se as pessoas assim: “Eu sou o outro você”. Achei muito lindo.

Já é de noite, bem tarde, e estou me despedindo. Vou ali sentar na minha poltroninha e ler um livro: ‘O Encantamento de Lily Dahl’, da Siri Hustvedt. Ela é a mulher do Paul Auster e as vezes gosto mais dela do que dele…