Fragmentos

Jeanne Moreau, a militante de esquerda.

Se existe uma atriz capaz de simbolizar o cinema moderno, essa é Jeanne Moreau, que partiu domingo passado aos 89 anos. Ao longo de 65 anos de carreira, exibiu sua presença luminosa em mais de 100 filmes, trabalhando com os maiores diretores do mundo, entre os quais o brasileiro Cacá Diegues, que a dirigiu em “Joana Francesa”, em 1973. Segundo seus familiares, morreu enquanto dormia, em seu apartamento em Paris.

Na sua longa e excepcional carreira no cinema, ganhou quase todos os prêmios cinematográficos da Europa, sendo também a primeira mulher eleita para a Academia de Belas Artes do Institut de France, uma das cinco grandes academias nacionais francesas.

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Mas, alem de grande atriz, Jeanne era também uma mulher moderna, intelectual, livre e libertária, uma militante das causas da esquerda, às quais se dedicou de corpo e alma a partir dos anos 2000. Ela assinou manifestos e, em alguns casos, foi a passeatas defendendo o direito ao aborto (inclusive assumindo que já havia abortado), a necessidade de conversas entre israelenses e palestinos, pelo direito de voto dos estrangeiros, contra o racismo, sendo uma das fundadoras do SOS Racismo francês, pelo direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e, mais recentemente, encabeçando o manifesto do mundo da cultura contra o Front Nacional, partido de extrema direita, liderado por Marine LePen.

Mas a causa que mais a mobilizava era a política migratória e de segurança do presidente francês conservador Nicolas Sarkozy. Seu governo expulsou, só em janeiro de 2010,  8.313 ciganos “em situação irregular”, homens, mulheres e crianças, que vieram da Romênia e da Bulgária (países que fazem parte da União Europeia desde 2007).

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Jeanne escreveu duas cartas comoventes ao ministro francês da Imigração, Eric Besson, e ao seu colega do Interior, Brice Hortefeux, exaustivamente publicadas na imprensa europeia, e que dão bem a medida do seu engajamento e humanidade. As cartas estão abaixo.

1.

“Senhor ministro, uma das características fundamentais dos seres humanos é que eles se movimentam. Hoje, 175 milhões de homens e mulheres residem fora de seus países de origem. Vivemos num país onde as pessoas têm tanto medo das policias que saltam pela janela para escapar, mesmo quando não fizeram nada de errado. Isso aconteceu seis vezes em menos de 3 meses e continua acontecendo. Estas pessoas vieram aqui para fugir da guerra, da repressão e da miséria. O único crime delas é ter a coragem de deixar tudo para ter uma vida melhor e, em lugar de ajudá-las, protegê-las, nosso país as persegue e expulsa. Tenho vergonha. Somos certamente muitos que têm vergonha dessa violência cotidiana feita em nosso nome contra os estrangeiros. Essa violência desonra aqueles que decidem, aqueles que a executam, mas também aqueles que a deixam ocorrer e permanecem em silêncio. Todos deveriam berrar, para que tais tragédias não aconteçam na França ou em qualquer lugar no mundo. Para que jamais vivamos o inaceitável. Cada um deve gritar para que nossa sociedade não vire, definitivamente, as costas para a solidariedade e a fraternidade”.

2.

“Senhor ministro Hotefeux, faz frio, é inverno. Tenho vergonha do frio, desse inverno que o senhor luta para prolongar até a infâmia. Já faz mais de um ano que, dia após dia, o frio desse inverno invade as cidades e os campos de nosso país, outrora um país de esperança e vida. Em minha condição de cidadã francesa, mais agarrada que nunca à liberdade, igualdade e fraternidade, tenho o dever de recordar, senhor ministro, que o senhor não tem o direito sobre a vida ou a morte dos homens e mulheres, ou das crianças, que trabalham, vivem, estudam na França, país hoje desonrado. Minha vergonha e nossa desonra, pela qual o senhor é um grande responsável, tornam-se mais profundas quando me lembro do momento fraternal sobre sobre uma doca em Marselha, após a guerra na Argélia. Fazíamos filas para embarcar no Eldjazaire. Eu conheci esse país. Na minha frente, um trabalhador voltava para passar as férias em seu país quando virou-se para mim, abriu seus braços e disse: ‘seja bem-vinda a Argélia’. Senhor ministro, a vergonha diz respeito ao coração; a desonra é um assunto civil. Quando penso nesse argelino fico com vergonha. Tenho vergonha do senhor, por ter impedido seu filho ou sua filha de serem meus vizinhos. O senhor desonrou, por meio de leis furtivas, a senso da República e de minha civilização. Eu não o saúdo. Faz muito frio nesse inverno.

***

Sua última aparição no cinema foi no também ultimo longa metragem do mestre português Manoel de Oliveira, em 2014. Ela com 86, ele com 105. O Gebo e a Sombra é um filme de época, baseado em texto do escritor português Raul Brandão, e também tem Claudia Cardinale no elenco. O filme ainda não foi exibido no Brasil.