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Parabéns, Fernanda Montenegro…

Fernanda Montenegro, a Fernandona, faz aniversário hoje. São 87 anos de vida e 70 de uma carreira impecável, que a transformou em uma das maiores damas dos palcos e da dramaturgia brasileira de todos os  tempos. Ela é a única brasileira já indicada ao Oscar de melhor atriz, pelo seu trabalho em Central do Brasil e a primeira a ganhar o Emmy Internacional, também como melhor atriz, por uma minissérie da tv Globo.

Sou muito feliz por ter trabalhado com ela nas excursões de algumas peças em cidades do Nordeste. Foram quatro peças, na verdade. Fedra, de Racine – com direção de Augusto Boal, The Flash and Crash Days, escrito e dirigido por Gerald Thomas, Da Gaivota, de Tchekhov, dirigido por Daniela Thomas e principalmente Dona Doida, a partir de poemas de Adelia Prado, com direção de Naum Alves de Souza.

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Dona Doida era um espetáculo solo, roteirizado pela própria Fernanda, mais o marido Fernando Torres e, claro, Adélia Prado. Com poemas selecionados dos seis livros, o roteiro, todo amarradinho, tem início na infância e fala da descoberta da presença dela no mundo, passa pelo encontro do amor e vai até chegar à maturidade, na conclusão da vida. A religiosidade que marca fortemente a poesia de Adélia perpassa todo o texto. É um espetáculo maravilhoso.

O cenário é apenas uma porta e alguns praticáveis, com iluminação super simples, e um figurino composto por confortáveis blusas e pantalonas criadas pelo diretor. Uma montagem econômica, boa para viajar. E viajamos bastante com Dona Doida, apresentada em teatros grandes e pequenos, com casas lotadas e as vezes com pouca gente, mas sempre ovacionados de pé no final. Por insistência dela, levamos Dona Doida a pequenas cidades do Agreste e Sertão pernambucanos. E foi uma experiência incrível ver Adélia Prado falando para as sertanejas (sim, porque a maioria da plateia era formadas por mulheres).

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As palavras da poeta goiana, calaram fundo nos corações de quem estava aberto para ela. Pra mim foi uma experiência transformadora.

Ah, e Dona Doida nunca saiu de cartaz. De vez em quando ela remonta e apresenta novamente em algum lugar. Nem preciso dizer que é a peça preferida dela. É o seu “trabalho redentor“.

Um parêntese pra contar duas historinhas que aconteceram nessas apresentações de Dona Doida.

  1. No Teatro Alfredo Leite, em Garanhuns, no segundo dia de apresentação, umas cinco baratas invadiram o palco. Baratas voadoras. Foi uma gritaria na plateia. Fernanda, muito calma, interrompeu o monólogo. E dois contra regras entraram em cena com chinelos na mão e em alguns minutos mataram as invasoras. E Fernanda recomeçou o espetáculo.  hahahaaa…
  2. Em Caruaru, o produtor local insistiu que carro de som era uma mídia muito eficaz na cidade, por isso devíamos usá-lo. Conversamos com Fernanda e ela concordou. Então preparei um release da peça, para ser usado pelo locutor. E no dia da estreia, no começo da tarde, lá vem o carro de som entrando na rua do hotel. Corremos pra janela pra ver e o motorista dá uma paradinha em frente de onde estávamos todos. E o locutor, com aquela voz de todos os locutores de carro de som: “Hoje no Teatro tal, a grande atriz Fernanda Montenegro, fazendo rir e chorar no espetáculo Dona Doida, não percam”… e entra a música que ele achou mais apropriada e representativa: Elba Ramalho cantando: “Doida, muito doida eu sou, pelo seu amor”…. hahahahahaaaa…. caímos todos na risada.

Fecha o parêntese.

Desses meus contatos com Fernanda Montenegro guardo na memória a sua gentileza extrema com todo mundo, sua inteligência, seu grande conhecimento dos meandros de uma produção, seu amor pelo teatro.

A cada vez que nos encontrávamos, ela perguntava pelas crianças, pelo trabalho cotidiano, mostrava interesse verdadeiro pela vida das pessoas. E trazia pequenos presentinhos… Fazia isso com toda a elegância e generosidade. Uma pessoa especial.

No teatro, é inigualável a maneira como ela domina o texto. Ator jovem, do grupo Nós, do Morro, do Vidigal, Rio – que participou de oficinas de interpretação que ela costuma fazer para jovens atores, contou: “Ela nos ensinou a falar com o fundo do peito, a preencher o mundo com a sua alma, a tomar o tempo e o palco. Nenhuma palavra, nenhuma sílaba, nenhuma vírgula pode ser desprezada. Tem poesia e drama num hífen. Num til. Num circunflexo. Ela só está adormecida. Isso está  sendo de grande utilidade pra nós, no teatro e na vida”.


Mantendo a tradição, vou contar umas coisinhas especiais da grande Fernandona, nada secreto, coisas que escutei dela mesma, outras que podem ser lidas por aí na internet.

– Fernanda recusou um papel em “Terra em transe” (1967), clássico dirigido por Glauber Rocha, por estar excursionando com uma peça. A personagem antes destinada a ela ficou com Glauce Rocha.

– Em 1985 Fernanda foi convidada para ser ministra da Cultura do governo Sarney. A atriz preparou uma longa carta, escrita na máquina de escrever, recusando o convite. Num dos trechos, ela garante: “Não é fácil dizer não. Mas o teatro é o meu lugar”.

– Fernanda criou um prato de massa que até hoje consta do cardápio do restaurante La Fiorentina, no Leme. O prato tem o seu nome. É um Filé a la Pizzaiola, que leva carne, alcaparras, vinho branco, azeitonas pretas, orégano e tomates cereja, acompanhado de um penne. Ela diz que é mais gostoso do que aquele que ela faz em casa.

– Milton Nascimento compôs pra ela a música “Mulher da vida”. Em um trecho, há uma referência direta à atriz: “Estrela Montenegro do universo / Mulher é muito mais que mãe filha / É mais do que penso do infinito“. A canção foi gravada por Simone, em 1983.

– Na época da ditadura militar, Fernanda enfrentou a censura. Segundo a atriz, os palavrões presentes na peça “Homem do Principio ao Fim (1966), de Millor Fernandes, tiveram que ser barganhados com o censor. Ela recorda que Ziembinski, o diretor, fez questão de manter no texto a expressão “olho do cu“, mas só convenceu os censores ao ceder e excluir os termos “cagalhões” e “bimbadas“.  😀

– Ao contrário de outros artistas, ela sempre come muito antes de entrar em cena. Tipo: um frango a passarinho inteiro, uma costelinha de porco com acompanhamentos, dois salsichões com salada russa. Fernanda, aliás, não tem qualquer restrição alimentar. Come carnes vermelhas e brancas, queijos, leite de soja, frutas e verduras. Só não bebe refrigerantes. Também não bebe álcool nem fuma.

– Suas flores preferidas são as orquídeas. Um vaso com essas flores no camarim, vai deixa-la muito feliz.

– Fernanda é a favor da legalização das drogas e do aborto, além da criminalização da homofobia.

– Seu livro de cabeceira é “Memórias, sonhos, reflexões”, de Jung, mas ela nunca fez psicanálise.

– Faz longas caminhadas de manhã cedo. Sempre na orla de Ipanema ou Leblon. Não tem superstições, mas um estranho hábito, que mantem em teatros e estúdios de tv: quando encontra qualquer prego torto pelo caminho, caído de algum cenário, pega o objeto e segura até o momento em que entra em cena.

– Desde o fim da década de 90, Fernanda organiza oficinas de leituras dramáticas com jovens de diversos grupos teatrais, especialmente de comunidades de baixa renda. Já viajou com o projeto por 13 estados brasileiros.  “Sempre saio muito bem alimentada desses encontros”, diz.

– O delicado trabalho de Fernanda como a Dora de “Central do Brasil” despertou reações pelo mundo. Seu admirador confesso, o ator Gregory Peck (ganhador do Oscar por seu papel em “O sol é para todos”, de 1962), galã por quem suspirava na adolescência, escreveu uma carta pra ela: “Querida Fernanda Montenegro, assisti ao seu filme e devo dizer que sua performance foi admirável, tocou meu coração, maravilhosa, nobre, sem sentimentalismo. Com afeto e meu respeito, e um BRAVO”.  A carta foi emoldurada e hoje está na parede da casa da atriz.

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Parabéns, Fernanda Montenegro, querida Fernandona… e muito grata por tudo…

<3