Fragmentos

Quando a idade bate à sua porta.

Essa semana que passou as coisas do mundo me derrubaram. Fiquei num vazio enorme, flutuando num lugar sem nome, sem graça e sem sentido. Tudo estava dando errado. Desde as coisas prosaicas da casa, na parte de dentro e na parte de fora, até amigos que se foram sem dar tempo de me despedir e todas as coisas absurdas que esse presidente está fazendo em meu nome sem me consultar. Foi logo depois que o Freixo perdeu a eleição no Rio. Eu estava botando a maior fé na vitória dele, todo mundo sabia que, caso eleito, ele não ia poder fazer muita coisa não, mas seria como um bálsamo, uma esperança, um reforço pra gente continuar resistindo. E ele perdeu.

De formas que, de repente,  caiu tudo sobre mim, todas essas perdas, as derrotas, as dificuldades… Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora. Como um trator ou uma jamanta de 10 toneladas. Uma enorme sensação de fracasso.

Fiquei uns dois dias assim. Uma hora eu pensei: que é isso, dona Beth? A senhora já passou por tantas, tantas coisas brabas nessa sua já não tão curta vida, porque agora esse drama todo? Já viu morte, prisão, tortura, violencia fisica e psicologica e emocional… Muito tiro, porrada e bomba. Então o que é diferente agora?

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E a resposta, my friend, is blowing in the wind: hoje ja não sou mais jovem, meu corpo já não obedece alegremente ao que manda a cabecinha que se recusa a envelhecer.

Antes se dava problema com encanamento, com a rede elétrica, as compras, com menino, gato ou cachorro – eu ia lá, metia a mão e resolvia. Problemas com a horta, com formigueiro, com gato cheio de pulgas? Vamos nessa! Veste a luva de crochê com dedinhos de couro, pega a enxada, o rastelo, a tesoura de poda, o vaporizador de remédio, e pronto. Tudo resolvido em pouco tempo. E na rua também – os debates, as passeatas, os abaixo assinados, as faixas e cartazes pra fazer, os textos pra carro de som, as pichações em muros, as palavras de ordem… Fazia tudo, sem deixar as crianças de lado. Uma energia e entusiasmo inesgotáveis.  Uma esperança sempre pronta a ser renovada… Porque fui sempre de me jogar com fervor em tudo, uma ariana legítima.

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Hoje não.  A pia do banheiro entope, o fogão só acende uma boca, a horta morre toda ressecada, formigueiros pipocam em toda parte. E eu não dou conta. Nem consigo ir sequer na passeata, porque moro longe, não tenho carro, e acima de tudo estou meio cansada e sem disposição… O corpo todo pede pausa. A cabeça continua agitando, querendo, sem freios, mas o corpo não dá ouvidos. Quer ir mais lentamente, no seu tempo.

Acho que isso se chama velhice, uma situaçãozinha que é difícil de encarar. Segundo o dicionário Houaiss online, Velhice, substantivo comum abstrato feminino, quer dizer “estado decadente de qualquer coisa de longa existência, por perda de viço ou deterioração”. Caraca, essas palavras que são como pedradas, fala sério. Em seguida ele tenta me bajular um pouco, dizendo: “no homem, a velhice se manifesta aos 65 anos; numa águia, aos 12; num cachorro, aos 15; num papagaio, aos 20; numa tartaruga, aos 100 anos. Nos tempos bíblicos, a raça humana custava muito a envelhecer. Noé só deu mostra de velhice aos 400 anos e Matusalém teve cabelos brancos somente depois de 800″!

Não, estou muito bem, obrigada.  Preciso viver tanto não. Mas devo encarar a chegada dessa idade mais avançada, sem duvida. Como um tempo de selecionar mais o excesso de informações de todo dia, sem deixar de manter a mente aberta, mas em repouso. Focada no que me faz bem como pessoa.  Ter um tempo pra não fazer nada também,  o que ja é um luxo para muito poucos. Não sei se chego lá, mas vale a pena tentar.

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Li outro dia uma pesquisa do IBGE calculando que em 2030 já seremos um país de velhos. Em 2050, a população de velhos vai ultrapassar a de crianças e jovens de até 29 anos. Ja a OMS (Organização Mundial da Saúde), tem certeza de que nossa população acima dos 60 anos cresce acima da média mundial. E nem duvido que até lá uma pessoa já vai ser considerada velha com uns 40 anos…

Sim, amigas e amigos, distinta platéia, pode me chamar de velha. E eu respondo que envelhecer sem disfarces é um ato de coragem e de sabedoria. E que cada ruga, cada marca ou cicatriz desse meu corpo conta a minha historia.  E que somos muitos e interessantes velhas e velhos que estão por aí, se reinventando a cada dia,  abrindo os caminhos para que vocês, quando chegarem à nossa idade, possam envelhecer com mais tranquilidade.

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Né mesmo?