Fragmentos

Sobre Amor e Morte

Nos últimos dias tenho pensado muito sobre morte. Sobre perdas, sobre dores, sobre luto. Porque eu conheço bem esses labirintos, desde pequena. Primeiro perdi a minha mãe com menos de quatro anos, depois minha avó amada, em seguida o meu pai…  E mais na frente perdi amigos, muitos, muitos amigos, numa época em que o sumiço de pessoas era quase corriqueiro. Até que aparecessem mortos.

Mas sobre essas mortes a gente não falava, nunca. Porque câncer era tabu, porque fazer um aborto era mais tabu ainda, e porque ser comunista, então, era a coisa pior que podia acontecer com um ser humano. E as minhas mortes estavam todas ligadas a essas coisas das quais não se podia falar o nome. Por isso ficaram guardadas aqui dentro, grandes, pesadas, tomando um espaço enorme e criando couraças impossíveis de romper.

Até que morreu o Ivan. O meu amor, o meu companheiro e cúmplice por quase 25 anos… Aquele menino engraçado que me obrigava a olhar pra dentro de mim, a tirar os véus e as teias de aranha dos espaços internos, a abrir as janelas e encarar o espelho. Ele fez isso comigo daquele jeitinho doce e engraçado, era mais chegado numa DR do que eu. E foi bom e necessário. A partir daí e através dos anos, mudamos muito, internamente, nós dois. Ele me ensinou a ser mais generosa em todos os sentidos, a dar sem esperar nada em troca, a dividir, a escutar as pessoas. Enfim, a gente tinha muita consciência de que ficar juntos fazia de nós pessoas bem melhores. Ele queria casar comigo, fazer uma festa bem linda, isso era bem ele… Mas eu nunca quis. Pensava, e ainda continuo pensando, que, sem compromisso oficial, a gente cuida mais do amor, porque ele pode acabar no dia seguinte.

E assim vivemos bem juntinhos, entre tapas e beijos, por muitos e muitos anos.

Mas aí um dia soubemos que ele tinha uma doença séria e incurável. A Hepatite C ainda é considerada o mal desse século, porque não tem sintomas nem vacinas. E quando o médico diagnostica, o fígado do paciente já está bem detonado, funcionando precariamente. Era o que estava acontecendo com ele. A única saída era o transplante. Então o nome dele entrou na fila única dos transplantes de fígado, uma lista imensa, com doentes de todo o Brasil. Ele era o paciente número 685. Esperamos cinco anos por um fígado compatível, durante os quais lemos tudo o que existia sobre o assunto, participamos de congressos médicos, procuramos tratamentos alternativos, gastamos quase toda as reservas financeiras que juntamos com o nosso trabalho. Porque eu estava colada com ele, nunca me passou pela cabeça deixar ele sozinho nesse momento. Aquela doença também era minha.

 

 

Nunca falei ou escrevi sobre isso, engraçado não é?… Mas, mesmo com toda a minha história de perdas, essa foi a primeira vez que eu acompanhei o cotidiano de uma pessoa amada até a morte. É duro a gente ver a doença ganhando a batalha, dia após dia, com controle apenas por exames de todas as espécies… aí piora um pouco, interna no hospital, vai pra UTI, melhora, volta pra casa, faz novos exames, experimenta um remédio novo, melhora, graças às deusas, agora vai. Aí piora de novo… e assim sucessivamente, por meses e meses.

E a gente vê a pessoa amada ficar fisicamente cada vez mais debilitada, mas só no corpo, porque a cabeça continua a mil, com altas ideias, como sempre. Imagine que ele doente desse jeito, ainda gravou umas seis cartas mandadas via internet pros filhos e pros amigos, onde falava do dia a dia e mostrava os remédios e o ambiente, mas com tantas piadas e bobagens, que todo mundo ria em vez de chorar.

Ele me falava assim “Baby, um dia todo mundo vai. Quando chega a hora de ir, o melhor a fazer é relaxar e dar risada”…  Mas eu ficava pensando “não, por favor, agora não”. E me passava na cabeça que era um desperdício todo aquele saber que ele tinha, sobre música, sobre história da cultura popular, sobre danças brasileiras, sobre marcenaria, sobre pintura com aquarela, tudo aquilo que fazia dele uma pessoa tão especial, de repente não existir mais. Era uma tristeza muito grande.

Mas resumindo, a situação física dele piorou muito durante esses cinco anos, o que fez seu nome subir na lista, passar na frente de outros que poderiam esperar mais um pouquinho, e nos mudamos pra perto do hospital, em outro estado, pra esperar a doação que poderia vir a qualquer hora. A gente via outros pacientes bem doentes, que renasciam depois do transplante, então a esperança era enorme. Ficamos na ansiedade por mais uns seis meses, até que um dia chegou um fígado compatível com sua altura e peso e tipo sanguíneo, e o Ivan foi pra cirurgia. Suas últimas palavras pra mim, já entrando no centro cirúrgico, foram: “a gente não sabe o que vai acontecer aqui, então quero que você fique bem.  O que quer que aconteça, prometa que você vai ficar bem”. Claro que prometi, e arrumei um sofá pra esperar notícias daquela cirurgia que ia durar pelo menos umas 15 horas. Vi o fígado do doador chegar, cochilei um bocado, uma hora vieram me dizer que tudo tinha corrido bem, depois vi ele passar na maca pra UTI, e fui pra casa dormir.

Mas ele não acordou. Seu corpo rejeitou o fígado novo e ele ainda ficou cinco dias em coma induzido, todos os órgãos funcionando através de máquinas. Um sofrimento. No quinto dia tive autorização de entrar na UTI, vestida com uma roupa de astronauta, e fiquei sozinha com ele. Ele estava em coma, mas eu tinha certeza de que me escutava, vi lágrimas escorrendo de seus olhos. E eu falei e falei e ri e chorei, e no resumo o que disse foi que a gente ia ficar bem, que parece que tinha chegado a hora e que ele devia ir. Não podia dizer outra coisa. Duas horas depois ele se foi para sempre.

O que acontece quando a gente percebe pela primeira vez que acabou, que a pessoa amada nunca mais vai estar por perto pra uma conversa, um beijo, uma risada? Não sei dizer. Eu apaguei esses dias da minha memória. Meus filhos estavam comigo e tomaram todas as providencias com o translado do corpo, cremação, essas coisas. Não lembro de nada. Sei que chorei por dentro. Queria gritar, como aquelas mulheres árabes, que rasgam a roupa e jogam areia na cabeça, desesperadas. Mas o meu choro era quieto, quase calado.

Por dentro eu estava estraçalhada, a dor era tamanha que não me deixava respirar. Estava tudo em carne viva, ardendo e sangrando ao mesmo tempo. Me via em várias idades, desde criança, chorando por todos os meus mortos.  Só conseguia dormir com remédios, e quando acordava começava tudo de novo. Foi quase um mês assim. Sem vontade de comer nada, ou conversar com ninguém, somente sentindo um pássaro de bico enorme, que batia as asas me machucando e querendo sair e abrindo buracos no meu peito com o seu bico. Dor, dor. Emagreci sete quilos.

Depois a vida me obrigou a juntar meus pedaços, os novos e os velhos, que eu não podia mais colar como era antes, mas que precisavam estar de alguma forma inteiros porque existia o filho mais novo, o trabalho, a sobrevivência, agora sem ele. Garanto a vocês que isso é uma coisa super difícil, a mais difícil de todas as coisas que já fiz. Amiga terapeuta dizia: “Você precisa viver o seu luto até o fim. Leve o tempo que precisar”.

Mas não deu, não tive esse tempo. Passado tantos anos, acho que ainda estou de luto.

Tem gente que me diz: cara, já faz um tempo que ele se foi. Não é saudável você ainda pensar nisso. Você precisa sair, conhecer gente nova, arrumar um namorado”… nem digo nada, porque não quero dar trela pra essa conversa, mas não sou mórbida… eu saio, me divirto, dou risadas, faço o possível pra ter uma vida boa… e tenho uma vida boa, sim.

Mas vivo uma solidão interna que é real e é somente minha. Ninguém pode entender isso, só quem viveu. Por fora sou quase como sempre fui, por dentro estou um pouco “congelada” pra não sentir dor nem sofrimento. Não quero ficar triste e nem tenho medo de morrer. É só instinto de preservação…

Estou viva e sou muito grata ao universo por isso.

(nunca falei sobre isso, que coisa)…