Fragmentos

E viva Bob Dylan!

Bob Dylan foi o artista mais comentado na internet esses dias, pela sua surpreendente premiação com o Nobel de literatura. A academia sueca declarou que ele foi escolhido “por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana“, pelo seu “status de um ícone” e que “sua influência na música contemporânea mundial é profunda“. “Ele provavelmente é hoje o maior poeta vivo“, chegou a dizer um membro da instituição.

Tem gente que não concordou com a escolha, porque não reconhece que a palavra cantada é um gênero próprio da poesia, que vem desde os trovadores da Idade Média. Consideram que literatura é apenas o que se manifesta em obras convencionais… Será que a literatura ou a poesia não pode atingir novos formatos e sentidos? Nos últimos 50 anos, o mundo revelou poetas/cantores extraordinários,  como Chico Buarque, Leonard Cohen, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Cartola, Serge Gainsbourg, Victor Jara.  Só pra citar alguns. Mas isso é uma velha discussão, que pelo visto não vai ter fim.

No caso de Bob Dylan, além dele ser um virtuose no artesanato da poesia, é ainda um “bardo”, um trovador à moda tradicional, que promove com suas canções as mais urgentes causas libertárias do seu tempo, como os direitos civis, a segregação racial, a religião, a política ou o lado filosófico da passagem do tempo. Pela primeira vez as pessoas ouviam versos de alta qualidade em forma de melodias, e gostavam…  Talvez porque precisassem daqueles versos como nunca. Bod Dylan e suas canções chegaram na hora certa, em que faltava dar uma resposta ao establishment, aos canhões, era preciso encontrar uma forma de não se render. Para os jovens daquela geração, ele representava a liberdade de escolha de como viver e do que fazer, e principalmente de dizer não…

Como disse a secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius: “Se olhar para trás, você descobre Homero e Safo: ele escreveram textos poéticos para serem representados. E com Bob Dylan é a mesma coisa… Ele pode e deve ser lido. É um grande poeta da língua inglesa.”

Um dos maiores poetas do século XX, sim, por que não?

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Com cinquenta e seis anos de carreira, 69 álbuns e 12 livros escritos, Bob Dylan é o único artista na história a reunir, com seu trabalho, as principais premiações da música, da literatura e do cinema. Ja tem em casa: um Oscar pela trilha do filme Garotos Incríveis, de Curtis Hanson; 12 Grammys e 8 Globo de Ouro por vários discos e um Pulitzer “por seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de poder poético extraordinário“. Alem disso ganhou o prêmio espanhol Príncipe das Astúrias, por sua contribuição à cultura; faz parte do Hall da Fama do Rock and Roll, em Cleveland, que registra a história dos mais influentes músicos do gênero, e recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade, do presidente Barack Obama em 2012.

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Mas parece que ele não liga muito pra esses prêmios, não. Horas depois de a academia sueca anunciar o Nobel de literatura,  fez show em Las Vegas com a casa lotada, todos aguardando que falasse sobre o assunto, mas ele não falou nada… “Zero comentários”, disse o enviado do jornal inglês The Guardian. Segundo jornalistas presentes, Dylan se limitou a cantar, sem qualquer referência ao prêmio. O jornal Washington Post, que entrevistou pessoas ligadas ao artista, afirmou que o músico permaneceu em silêncio o dia todo. O cantor Bob Neuwirth, amigo de Dylan, disse à publicação americana que ele “inclusive poderia não agradecer” a homenagem.

Vinte e quatro horas depois do anuncio, a Academia sueca ainda não tinha conseguido falar com o artista. “A Academia entrou em contato apenas com o agente de Dylan e também com o diretor de sua turnê“, afirmou o chanceler da instituição, Odd Zschiedrich.

A cada ano, os premiados são convidados a comparecer a Estocolmo no dia 10 de dezembro para receber o prêmio das mãos do rei da Suécia e discursar durante um jantar de gala. A Academia sueca, porém, não sabe se Dylan tem a intenção de comparecer ao evento.


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Leonard Cohen, outro grande artista na tradição da poesia cantada, adorou o Nobel dado a Bob Dylan. “Para mim, é como dar uma medalha ao Everest por ele ser o mais alto do mundo“, afirmou em entrevista ao jornal “El País”. Para ele, Dylan é tão grande que o prêmio, além de óbvio, é apenas um detalhe. A admiração é recíproca, já que Dylan considera que as canções de Cohen “são como orações”.

Eles são amigos, e de vez em quando se encontram para longas conversas.

Li uma historinha sobre os dois, que se passou nos anos 80, quando Leonard Cohen foi assistir a um show de Bob Dylan em Paris. No dia seguinte, tomaram café da manhã juntos e conversaram sobre seus trabalhos mais recentes. Dylan estava especialmente interessado em “Hallelujah”, que chegou a cantar em alguns shows.  Ele considerava magistral o casamento entre o sagrado e o profano da canção. E perguntou quanto tempo ele levou para escrevê-la.

Dois anos, disse Cohen.

Na verdade a canção só ficou pronta cinco anos depois de começada. Ela foi reescrita mais de 12 vezes até chegar a sua forma final… Por sua vez, Cohen disse a Dylan que adorava “I and I”, do disco “Infidels”.

Quanto tempo você precisou para escrevê-la?

Ah, uns 15 minutos, Dylan disse.

😀

Quando falam de Leonard, evitam mencionar as suas melodias, que juntamente com as suas letras  são a sua verdadeira genialidade… Se eu não fosse Bob Dylan, queria ser Leonard Cohen“. (Bob Dylan)

“Quando eu ouvi Dylan pela primeira vez, eu sabia que estávamos diante de um poeta. Desde o começo, percebi que se tratava de um escritor da maior importância, alguém que falava com uma voz verdadeira. E isso era tudo o que me importava.  Eu gosto de todas as músicas que ele fez. São todas grandes canções, profundas e verdadeiras”.(Leonard Cohen)