Fragmentos

A Serpente, de D H Lawrence.

Uma serpente linda, estranha e rara foi descoberta essa semana na cidade de Assis Brasil, interior do Acre. Ela é preta com a cabeça branca e tem mais ou menos 40 a 50 centímetros de comprimento. Os cientistas lhe deram o nome de Ninia hudsoni e disseram que ela é noturna  e terrestre e que vive entre as folhas secas que caem no chão da floresta.

É uma serpente rara por natureza, pouco conhecida pela ciência e não é ameaçada de extinção. Inteiramente negra no dorso, com a cabeça e barriga branca. As escamas são acarenadas, que dá o aspecto áspero ao toque. É completamente inofensiva, não morde, não tem peçonha e se alimenta de pequenos animais que vivem no folhedo da floresta”, detalhou o pesquisador e especialista em répteis e anfíbios.

Aí me lembrei que ontem ganhei um livro muito interessante, de nome Birds, Beasts and Flowers, um lindo livro de poemas de 1923, todo ilustrado, e escrito por ninguém menos que D. H. Lawrence, aquele ingles que a gente se acostumou a admirar pelos seus livros que retratam os efeitos desumanizantes da modernidade e da industrialização. Seus livros são importantes para a compreensão de uma época influenciada por  Freud e Nietzsche, e sofreram severas restrições na época dos lançamentos. O Amante de Lady Chatterley foi proibido e passou a circular clandestinamente. O Arco Íris foi considerado obsceno. E Mulheres Apaixonadas foi recusado pelos editores de Londres, e só foi publicado cinco anos depois em Nova Iorque.

Mas Lawrence também é autor de novelas, contos, poemas, peças de teatro, livros de viagens, traduções, livros sobre arte, crítica literária e cartas pessoais. E esse livro que estava lendo ontem tem um poema incrivel exatamente sobre uma serpente especial.

Não pode ser coincidência… O poema é extremamente visual e encontrei uma tradução dele na internet, feita por Lucas Haas Cordeiro, em 2012.

 

Serpente

Uma serpente surgiu em minha tina d’água,

Em um dia muito, muito quente, e eu com pijamas de verão,

Para ali s’embevecer.

 

Na sombra profunda, o singular aroma, de uma gigantesca árvore de alfarrobas,

Eu descia os degraus, e comigo a ânfora,

E precisei esperar, em pé esperando, porque ali estava ela na tina à minha frente.

Ela descendeu de uma fissura no muro-da-terra na obscuridade

E trilhou a sua indolência marrom-amarelada de ventre-sutil na direção das profundezas, através do limiar da pedra, que era a tina,

E descansou a sua garganta por sobre o leito da pedra,

E onde a água gotejava da torneira, em ínfima clareza,

Ela bebeu com sua boca linear,

Suavemente bebeu através das gengivas, para dentro de seu corpo comprido e vagaroso,

Silenciosamente.

 

Havia alguém em minha frente na minha tina d’água,

E eu, como um outro, à espera.

 

Ela alçou a cabeça do embevecimento, como faz o gado,

E olhou para mim vagamente, como faz o gado que embevece,

E tremeluziu a língua bifurcada em seus lábios, e meditou por um momento.

E inclinou-se e embeveceu-se ainda mais,

Suas cores do marrom da terra, do dourado da terra das vísceras flamejantes da terra

Em um dia siciliano de julho, quando Etna fumava.

 

A voz da minha educação enunciou que

Eu precisava matá-la,

Porquanto na Sicília as cobras negras negras são inocentes, e as douradas venenosas.

 

E as vozes em mim disseram, Se tu fosses um homem

Tomarias para ti um graveto e quebranta-la-ia, e acabaria com isto.

 

Mas deveria eu confessar que me afeiçoeei a ela,

Que exultei a sua tão tranquila presença, a embevecer-se em minha tina d’água

E a ir-se embora em paz, pacificada, sem jamais agradecer-me,

Para dentro das vísceras flamejantes da terra?

 

Foi covardia, o não ousar matá-la?

Foi perversão, o desejo de comunicar-me?

Foi por humildade a honradez?

Eu realmente me senti honrado.

 

E ainda assim aquelas vozes:

Se não estivesses com medo, mata-la-ia!

 

E eu verdadeiramente temia, eu estava incrivelmente  assutado,

E por isso mesmo, ainda mais honrado

Por ela desejar a minha hospitalidade

De através da porta sombria dos segredos da terra.

 

Ela embeveceu-se o bastante

E soergueu a cabeça, oniricamente, como um bêbedo,

E tremeluziu a língua como uma noite bifurcada pelos ares, tão negra,

Parecendo lamber-se os lábios,

E olhou ao redor como um deus, invisível no ar,

E vagarosamente virou a cabeça,

E vagarosa, vagarosamente, três vezes onírica

Evocou o traçado de seu lento comprimento a curvar-se em rodopios

A escalar a margem esfacelada das faces do muro.

 

E à medida em que ela instigava as faces para dentro do buraco mais terrível,

E à medida em que ela lentamente ascendia, abreviando viboramente os ombros, imiscuindo-se nas profundezas,

Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra a sua retirada para dentro do nefasto buraco negro,

Deliberadamente avançando em direção à escuridão, e vagarosamente levando a si mesma consigo,

Dominou-me, agora que encarava-me pela superfície oposta.

 

Eu olhei ao redor, livrei-me da ânfora,

Peguei uma tora grosseira

E arremessei-a dentro da tina d’água com um estrondo.

 

Pensei que não a tivesse acertado;

Mas de repente aquela parte da serpente que ficara para trás convulsionou com indigna prontidão,

Estorcendo-se como um raio, e esvaeceu

Dentro do buraco negro, a fissura labial da terra na fronte do muro,

O qual, na intensidade do meio-dia, eu fiquei a contemplar.

 

E imediatamente arrependi-me.

Pensei em quão insignificante, quão vulgar, um ato tão mesquinho!

Desprezei a mim mesmo e às vozes de minha maldita educação humana.

 

E pensei no albatroz,

E desejei que ela retornasse, a minha serpente.

 

Porque ela era como um rei, aos meus olhos,

Como um rei no exílio, destronado no submundo,

Prestes a ser coroado novamente.

 

E então, eu perdi a minha chance com um dos soberanos

Da vida.

E eu tinha algo a expiar:

A minha mesquinhez.