Fragmentos

O amor pode esperar em silêncio…

Recebi a visita de Dona Socorro, a linda velhinha que é dona da casa onde moro. Aquela cujo marido tá com Alzheimer, já falei muito deles por aqui…

Ela veio me convidar pra uma festança que os filhos vão fazer no primeiro sábado de março, pra comemorar os 65 anos de casamento dos dois. Primeiro uma missa de manhã, depois um jantar no salão de um hotel, onde uma das filhas é gerente. Vai estar presente familia toda, os “meninos” convidaram até os parentes da Paraíba e do Rio e estão esperando mais ou menos umas 100 pessoas. Uma festança mesmo.
Ela diz que não está muito animada, não. Que tá cansada, o marido depende só dela, não reconhece mais nem os filhos… Ela dá banho nele, ajuda na hora da alimentação… Ele é meio “tirano”, segundo diz sorrindo, não quer uma cuidadora, e assim é só ela, de dia ou de noite. E isso deixa a minha amiga exausta, só tem vontade de dormir cedo…

Mas o porque da festa é que está dando um nó na sua cabecinha branca.

– Será que os meninos estão pensando que essa pode ser a ultima vez que a familia toda se reúne? Será que eles acham que a gente tá perto de morrer e querem se despedir?
E os olhinhos dela se enchem de lágrimas e eu sinto tanto… não gosto de vê-la assim, quero um bem enorme a essa velhinha… aí abraço e quase boto no colo… e digo palavras de conforto pra ela não ficar tão pra baixo, mas dentro de mim também tenho a mesma impressão. Afinal os dois já ultrapassaram a expectativa de vida padrão dos brasileiros, não é? Mas não falo isso, claro que não. Digo que a festa pode ser apenas a forma de os filhos demonstrarem o amor que sentem por eles, não pode? uma festa de amor?

Ela choraminga um pouco, mas depois dá um sorriso e diz que sim, pode ser… E a conversa fica mais leve e logo mais ela diz que vai pra casa, ele deve estar esperando… E eu vou com ela, porque as perninhas são trôpegas e eu tenho medo que ela caia na rua.


Já perto da casa dela, vemos que o marido, o seu Antonio, já está no portão esperando e abre um sorrisão quando vê que ela está chegando. Aos 92 anos e com Alzheimer, a unica pessoa no mundo que ele reconhece é ela, a sua namorada, de 86. Ele, que era tão meu amigo, não sabe mais quem eu sou, mas me cumprimenta. E pede a chave do carro “pra ir no sitio”, pois está com saudades do irmão.
Um detalhe: o irmão que ele fala é o mais velho, que tem 96, está surdo e mora no interior da Paraíba.

Eita, que essa doença é triste demais.

O bom é que a familia está tentando trazer esse irmão  pra comemoração de 65 anos.  São bodas de que mesmo? nem sei. Ainda não é certo, mas os filhos estão empenhados nisso.

Vai ser uma emoção só essa festa. Acho até que vou aparecer por lá. Fui convidada, né?