Fragmentos

O casaquinho lilás

Rosa Luxemburgo, uma das grandes intelectuais do marxismo, célebre e temida polemista, jornalista tão famosa quanto formidável, usava casaquinho de tricô lilás e se encantava com borboletas amarelas nos jardins de Berlim.

Isso é o que a gente apreende dessa carta que escreveu para uma amiga, entre uma prisão e outra. Uma Rosa humana e cheia de poesia.

“Ontem, primeiro de maio, veio ao meu encontro – adivinhe quem? uma radiante borboleta-limão novinha! Fiquei tão feliz que meu coração estremeceu todo. Ela pousou-me na manga – eu uso um casaquinho lilás, e talvez a cor a atraia -, então borboleteou para o alto e se foi por cima do muro.

À tarde encontrei três bonitas peninhas diferentes: uma cinza-escuro de uma pega parda, uma cor de ouro de uma emberiza citrinela e uma cinza-amarelada de um rouxinol. (…) Hoje encontrei a primeira vespa! Uma bem grande com um casaquinho de peles novinho e brilhante e um cinto dourado. Ela zumbia um baixo grave e também pousou primeiro em meu casaquinho (…)

E ainda outra descoberta me deixou feliz hoje. Abril passado eu chamei vocês dois às pressas pelo telefone, talvez você ainda se lembre, para irem comigo às 10 horas da manhã ao Jardim Botânico ouvir o rouxinol que dava um verdadeiro concerto. Então nos sentamos nas pedras, calados e escondidos atrás de um espesso arbusto junto de um fio de água corrente; mas depois do rouxinol ouvimos de repente um grito lamentoso, monótono, que soava mais ou menos como “gligligliglic!”. Eu disse que aquilo soava como algum pássaro do pântano ou da água, e Karl concordou comigo, mas não pudemos descobrir de modo algum quem era ele. Imagine que um dia desses ouvi aqui nas redondezas de repente o mesmo grito lamentoso, de manhã bem cedo, e meu coração começou a bater de impaciência, de finalmente descobrir quem canta assim. Não tive sossego até que hoje descobri: não é uma ave aquática, e sim o ‘torcicolo’, uma espécie de pica-pau cinzento. Ele é pouca coisa maior que um pardal, e tem esse nome porque quando se vê em perigo tenta assustar o inimigo com gestos cômicos e revirando a cabeça. (…) 

Sabe de uma coisa? Tenho às vezes a sensação de não ser verdadeiramente um ser humano, e sim algum pássaro ou outro animal em forma humana malograda; no fundo eu me sinto muito mais em casa num pedacinho de jardim como aqui ou no campo entre as vespas, e a relva do que num congresso do partido.

Para você posso dizer tudo isso sem preocupação: você não vai farejar logo uma traição ao socialismo. Você sabe que eu, apesar de tudo, espero morrer a postos: numa batalha urbana ou na penitenciária. Mas o meu eu mais profundo pertence antes aos chapins-reais que aos ‘camaradas’. “