Fragmentos

quero mais brincar, não…

amiga amada me chama pra passar alguns dias no recife pra ser cuidada paparicada beijada e abraçada pelos que gostam de mim me animo mas é impossível além da grana inexistente ainda tem outras coisas que nem vem ao caso aqui mas que me prendem e me amarram com fortes laços forte aço é impossível sair por um bom tempo.

ficar aqui e trabalhar em casa é estranho demais fico com fome e não tenho nenhuma vontade de fazer comida e quando filho faz não gosto do gosto e fico sem comer e depois não aguento lavar panelas e pratos e a cozinha acaba ficando uma selva de coisas brilhantes e sujas e eu ali no meio pensando que podia muito bem morar num lugar que era só querer e as coisas aconteciam e desejar comer jabuticaba e manga rosa e tangerina e as frutas estariam num pratinho à minha espera, lavadinhas e descascadas mesmo não estando na época e eu ia me empanturrar.

mas não é assim que acontece vivo como numa pista de altíssima velocidade sou o carro supersônico que vai e vai e vai na pista meio molhada e o mundo passa borrado na minha janela e eu mal vejo porque não dá tempo é loucura demais corre corre você consegue o povo diz mas lá no fundo lá no fundo eu sei que nem e tudo o que eu queria é sentar e fechar os olhos e dizer que não quero mais brincar não.

e é mais fácil o camelo a girafa o leão o rinoceronte passarem no buraco da agulha do que o que mesmo não lembro e as coisas saem assim atropeladas sem virgula e só com um ponto final.

(foto de kazuo sumida – nyc)