Fragmentos

Adeus, Leonard Cohen…

Leonard Cohen se foi. E eu queria tanto escrever um texto bonito sobre ele, um artista que admiro há tanto tempo, mas não sai nada… Estou realmente triste. Ele tinha 82 anos, a gente tem certeza que viveu bem, espalhou muita beleza pelo mundo, mas é como se um parente, um amigo querido, um dos nossos, que tivesse partido… e isso dói.

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Há meses que ele vinha falando de morte. Em julho morreu de leucemia a sua companheira de tanto tempo, Marianne Ihlen, com quem viveu sob o sol da Ilha de Hidra, na Grécia. E ele escreveu: “Bem, Marianne, chegamos a esta época em que somos tão velhos que nossos corpos caem aos pedaços; acho que a seguirei muito em breve. Saiba que estou tão perto de você que, se estender sua mão, acredito que poderá tocar a minha. Você bem sabe que sempre a amei por sua beleza e sua sabedoria, mas não preciso me estender sobre isso, já que você sabe tudo. Só quero lhe desejar uma boa viagem. Adeus, minha querida. Todo o amor, a verei pelo caminho.”

 

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Dia 22 de setembro ele comemorou seus 82 anos lançando um disco de inéditas, onde a morte estava novamente muito presente.  “Hineni, Hineni/ Estou pronto, meu Senhor“, afirma em You want it darker,  a faixa-título, utilizando a palavra em hebraico com que Abraão apresentou-se a Deus e que significa “Eis-me aqui“. “Não há ninguém para culpar/ Estou deixando a mesa/ Estou fora do jogo“, sussurra mais adiante na canção Leaving the table.

Nas entrevistas de divulgação do disco ele declarou que tinha muitas musicas inacabadas que gostaria de concluir, mas que não tinha esperanças. “Não acho que vou ser capaz de terminar essas músicas. Talvez, quem sabe? Talvez eu tenha uma segunda chance, eu não sei, não me atrevo a me atrelar a uma estratégia espiritual. Eu não ouso fazer isso, tenho trabalho a fazer. Estou pronto para morrer. Espero que não seja muito desconfortável. Isso é tudo para mim“, disse na ocasião.

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A declaração chocou seu público e ele se desmentiu na semana seguinte, em uma festa de lançamento do disco. “Acho que estava exagerando. Eu sempre estive nessa de auto dramatização. Pretendo viver até os 120 anos, aliás pretendo viver para sempre“.

Nessas entrevistas, ele se disse muito feliz por estar em uma fase de vida sem preocupações financeiras, o que permitia que se concentrasse mais no trabalho. “Em um determinado ponto, se você não tem desafios financeiros sérios, você tem uma possibilidade de colocar sua casa em ordem. É um clichê, mas é como um analgésico, em todos os níveis. Colocar sua casa em ordem, se você puder fazê-lo, é uma das atividades mais reconfortantes, e os benefícios são incalculáveis“.

 

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Disse que a saúde debilitada o incomodava, mas que a calmaria da velhice era muito agradável. “Tenho muito menos distrações que em outros períodos da minha vida e, na verdade, isso me permite trabalhar com um pouco mais de concentração e continuidade do que quando tinha obrigação de ganhar a vida, de ser marido e de ser pai. A única coisa que impede uma produção plena é o estado do meu corpo, que está velho”, disse à New Yorker.

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Ele vinha se dedicando com ardor à religião, lendo o Zohar, a Bíblia Hebraica, evangelhos apócrifos e ensaios sobre a filosofia hindu. Tudo, catolicismo romano, budismo, LSD, sou a favor de tudo o que funcione. A religião continua sendo minha paisagem. Tento ter certeza de que essas referências não sejam muito estranhas”, disse na entrevista.

Não tenho palavras para agradecer o tanto em que ele esteve presente em minha vida.

Que faça uma boa viagem e encontre a Luz.