Fragmentos

Carlos Drummond de Andrade, um sujeito maroto…

Essa semana foi aniversário de Carlos Drummond de Andrade, um poeta queridíssimo dos brasileiros, autor de uma obra extensa e de fácil leitura. Mineiro de Itabira, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde hoje é lembrado por uma estátua de bronze, num banco da orla do Posto 6, em Copacabana.

O mineiro Leo Santana foi quem esculpiu a estátua, que pesa cerca de 150 quilos e retrata um momento rotineiro na vida do poeta, que costumava sentar nos bancos do calçadão, de costas pro mar, pra pensar na vida. Sempre sozinho, sempre calado, de pernas cruzadas e de óculos. Hoje, enquanto estátua, nunca está sozinho. Virou atração turística. As pessoas sentam ao seu lado, tiram fotos, conversam, pedem conselhos. Alguns mais mal educados roubam seus óculos – de 2002 (quando foi inaugurada) até o começo desse ano, 10 óculos foram recolocados na estátua, depois dos vandalismos. Uma vez teve seu rosto pintado de branco por um rapaz, enquanto a namorada filmava pra postar na internet. Foram presos, os dois.

Talvez o poeta até goste dessas visitas… Certeza que ele não gostava de aparecer, nem de ser fotografado, pois “como a cara que Deus me deu não é das mais simpáticas, e costuma ficar ainda pior quando fotografada, costumo fugir das objetivas como o diabo foge da cruz”, disse uma vez aos jornalistas. Mas assim, em bronze, sem precisar falar nem nada, só escutando… quem sabe, não é?

 

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Como não gostava de dar entrevistas, são poucas as histórias sobre ele que a gente pode achar na internet. Mas deu pra pegar algumas.

— Com 15 anos foi expulso do colégio interno onde estudava, em Itabira, “por insubordinação mental”, como os padres justificaram. O poeta teve de deixar o colégio durante a madrugada, sem se despedir de ninguém. “Não tenho trauma, não. Já falei tão mal dos padres que me expulsaram, já esculhambei tanto, que hoje estamos quites”, disse.

— Formou-se em Farmácia, mas nunca exerceu a profissão. “A única vocação que tive foi a de jornalista, e não a realizei plenamente. Fui um burocrata por muito tempo e trabalhei em alguns jornais. Mas a minha alma sempre foi de jornalista”.

— Definia-se como um tímido inveterado. “Sou incapaz de atravessar uma sala cheia de gente”, confessou uma vez. Por isso sentia-se incomodado com o escândalo que a sua poesia modernista provocou, principalmente os poemas “E Agora José” e “No Meio do Caminho“.

— Mesmo adulto, gostava de passar trote nos amigos. De vez em quando pegava o telefone e ligava,  imitava outra voz e enganava a todos… “Acho que tenho um espírito de moleque, sou um sujeito maroto”, ele contou em entrevista à revista veja, em 1977.

— Um de seus maiores amores na vida, foram as crianças. “Os pais eu não ligo, não, mas crianças… Quando vão lá em casa, sento no chão, invento brinquedos. Mesmo criança não falando, eu adoro. Gosto muito de bicho também. A sociedade humana, para mim, já está um pouco mais difícil”

— Escutava muito a música brasileira. “Gosto do Martinho da Vila, gosto de Noel, de Caetano, de Gilberto Gil. E também do Tom Jobim. É difícil dizer assim de cabeça, mas tem muita gente boa. Gosto de Chico Buarque, nem é preciso dizer, com quem me sinto muito identificado”.

— Em 69, a pedido da Revista Realidade, traduziu seis músicas dos Beatles, todas do álbum branco, lançado no ano anterior. As músicas são: Ob-La-Di, Ob-La-Da; Piggies; Why don’t we do it in the road?; I Will; Blackbird e Happiness is a warm gun.

— Durante sua carreira, Drummond também traduziu diversos livros para o português. Autores como Marcel Proust, Balzac e García Lorca foram alguns dos autores estrangeiros que o poeta traduziu.

— Em 89, com o Plano Verão, o então presidente Sarney anunciou que a moeda passaria a se chamar Cruzado Novo. E Drummond estampou a nota mais baixa, a de 50 Cruzados Novos. Cecília Meirelles aparecia na de 100,00. O Cruzado Novo durou pouco mais de um ano e foi substituído pelo Cruzeiro.

— Ele rejeitava o título de “o maior poeta da língua portuguesa”, que alguns jornais lhe deram. “Que é isso? E o Fernando Pessoa”?, perguntava meio indignado. Não se achava nem mesmo um grande poeta. “Não me vejo como poeta. Faço as coisas quando tenho vontade de fazer ou quando elas saem. Porque às vezes fico parado dentro da minha prisão de ventre mental, na minha toca. Não tenho nada de especial, não. Minha vida foi medíocre. Me deu o prazer de algumas amizades, algumas coisas boas. Eu fui um homem qualquer. Mais nada”.

Carlos Drummond de Andrade morreu 12 dias depois de sua filha única Julieta, em 17 de agosto de 1987.

Ano passado, o Instituto Moreira Salles comemorou o aniversário do poeta, gravando seus poemas na interpretação de alguns de seus admiradores.