Fragmentos

Chuva, chuvisco, chuvarada…

Chove aqui nessa cidade, uma chuva constante, aquela chuva que molha de verdade, porque não pára. O chão de Brasília é feito de um barro vermelho…  Aliás, todo o Planalto Central tem essa diferença do resto do país. A gente pisa numa cobertura aveludada quase cor de sangue, quente e meio trágica, que contrasta com o verde do abundante reino vegetal e o azul do céu. É um solo compacto, o vermelhão deve vir de resíduos de ferro que existem na região. Deve ser isso. Quando está seco, dá-lhe poeira. Quando chove, é a lama, é a lama… Quem mora aqui já se acostumou de ver uma procissão de carros sujos no plano piloto nessa época, os vidros traseiros com desenhos que as crianças fazem: ‘ me lave’ ou então ‘sou o sugismundo’. Hoje vi um engraçado: ‘sou sujinho, mas sou gostoso “…

E tem a questão do guarda chuva. Não existe um objeto mais antipático que um guarda chuva. Primeiro é o tamanho. Os pequenos, que cabem dentro da bolsa, são como a casa dos três porquinhos: um sopro de vento mais forte desmonta tudo. Os mais resistentes são grandes, a gente fica sem saber como levar, onde colocar quando está ocupada, enfim, eles sempre se perdem. Sem falar que guarda chuva é o supra-sumo do individualismo – a gente usa pra resolver exclusivamente o nosso problema e foda-se quem está do lado. Porque guarda chuva alheio ainda tem a capacidade de pingar gotinhas geladas bem na nossa nuca, por dentro da gola da blusa. Molha até a alma. Quem está embaixo do guarda chuva não se mistura e vive na solidão, pelos menos eu acho.

Mas a pior coisa mesmo são os motoristas que passam em velocidade, sem ligar pros que estão à pé e se protegendo da chuva em algum abrigo. Eles passam exatamente por cima da poça dágua, como se a intenção fosse essa mesma…  Já aconteceu comigo. Me molhei inteira, de água e lama. Dá vontade de chorar. Aí qualquer compromisso que você tenha fica pra nunca mais, porque é preciso vir em casa pra trocar de roupa… e o dono do carro já vai longe…

Chuva também tem um lado bom. As plantas adoram… As plantas estavam feias e pareciam mortas na seca. E  de repente, como num passe de mágica, brotam vários galhos de folhas fortes e depois flores e frutos, a arvore parece sorrir quando se balança com o vento. O reino vegetal está bonito e feliz.

Eu também gosto de chuva, desde que possa ficar dentro de casa, com as minhas meias de dedinhos, uma caneca de chocolate quente na mão, a conversar abobrinhas com o jovem daqui de casa, que tem idéias cada vez mais delirantes sobre tudo.

Mas confesso que preferia estar no verão nordestino, isso sim…