Fragmentos

E foram felizes para sempre…

Ganhei de um amigo um livro sensacional. Chama-se Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos, de Jacob e Wilhelm Grimm. Sim, aqueles mesmos  irmãos que assinam as mais bonitas estórias infantis, que até hoje a gente conta para as nossas crianças, e que foram temas de debates acalorados na internet nessa semana que termina.

Mas se são histórias tão conhecidas, por que esse livro me impressionou tanto? Primeiro porque é uma edição caprichada da CosacNaify, em dois volumes dentro de uma caixa, ilustrados com 43 xilogravuras do pernambucano J. Borges. E depois, e bem mais importante, porque são as histórias primordiais coletadas pelos irmãos Grimm entre 1812 e 1815, a primeira versão, a original, a sem cortes.

caixa

Os 240 contos impressos nos dois livros foram coletados na região do Hesse, mais ou menos onde hoje fica Frankfurt, ocupadas na época pelas tropas de Napoleão. Nessa região, contar as historias das lendas era uma atividade dominical. Era o que Wilhelm chamava de “poesia da natureza”, mantidas vivas nas memorias das mulheres mais velhas através da tradição oral.  Nessas lendas,  os seres vivos inocentes e frágeis lutam contra terríveis adversidades ou poderes malignos e sempre vencem. E a plateia se sente tranquilizada no seu senso de ética e de justiça.

No trabalho da dupla, Wilhelm escutava e coletava e Jacob transcrevia os contos no papel, sempre tendo o cuidado de apresenta-los como “a genuína criação espontânea de uma coletividade anônima”.  A primeira edição do livro, em 1815,  foi um grande sucesso entre o público adulto e infantil, mas na segunda edição, no ano seguinte, Wilhelm optou por mudar um pouco o texto de algumas historias, para ficar mais adequado para as crianças. Tirou principalmente algumas passagens mais violentas ou que falavam de sexo. Um tipo de auto censura, digamos assim.

 

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Por exemplo. Na história original (que podemos ler nesse livro), ao contrário do que se conhece hoje, Rapunzel transa com o Príncipe e fica gravida de gêmeos. A Bruxa, quando percebe a gravidez, corta seus cabelos e a joga no meio do deserto, e em seguida cega o Príncipe com espinhos nos olhos, numa cena bem sangrenta. E não tem happy end. Wilhelm alterou esse final para ficar menos violento para as crianças.

Outro exemplo. No conto original do sapo que vira príncipe, ele não recobra sua forma humana ao receber o beijo da princesa, conforme consta de todas as versões posteriores do livro. Aqui a princesa tem um acesso incontrolável de fúria e joga o sapo contra a parede com a intenção de esmaga-lo. E consegue. Nada de beijo e romantismo. Tudo muito nu e cru.

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Nas 17 edições que os livros tiveram enquanto os Grimm ainda viviam, a cada um as histórias foram sendo mais “domesticadas”. Quando a gente lê essa versão primordial, a gente estranha um pouco. Tem o mesmo cenário, os mesmos personagens, mas existe alguma coisa de cruel perpassando o texto, como crianças que morrem de fome, jovens que são assassinados, incestos, pessoas barbaramente queimadas, com as mãos cortadas, enfim, muita violência e sangue.  Os Grimm, no prefácio, dizem que a violência que vem impregnada nessas “poesias da Natureza” não chocam os que as conservam oralmente, porque “vem impregnada da mesma naturalidade do maravilhoso, das fadas e dos animais que falam, por exemplo”, e assim não interferem em suas vidas reais. São apenas historias.

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O fato é que essas narrativas populares coletadas pelos Grimm influenciaram muitos escritores ao longo dos anos. Principalmente os alemães. Goethe, Thomas Mann, Gunther Grass e  Brecht, por exemplo. Até Walter Benjamin, que tem um maravilhoso ensaio sobre os contos infantis alemães.

Interessante é que alguns dos contos dos Grimm se parecem muito com outros coletados em épocas diferentes por Charles Perrault, como Chapeuzinho Vermelho, O Pequeno Polegar, A Bela Adormecida, por exemplo, com pequenas variações. Talvez porque vieram da mesma região do Hesse alemão, que estava ocupada pelas tropas dos huguenotes de Napoleão.

Passados mais de 200 anos desse amoroso trabalho de pesquisa dos irmãos Grimm, seus contos continuam recebendo muitas interpretações antropológicas, literárias, mitológicas, pedagógicas, psicanalíticas, sociológicas, etc. E vão continuar recebendo por muito tempo ainda.

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As ilustrações que uso aqui foram feitas para diferentes edições dos Contos dos Irmãos Grimm.

Capa – A Bela Adormecida, feita por Herbert Leupin, em 1946

1 – Cinderela, feita em 1910, por Hanns Acker

2 – As moedas-estrelas, de Viktor P. Mohn, feita em 1882

3 – Chapéuzinho Vermelho, de Divica Landrová, em 1959.