Fragmentos

Eternamente Leila Diniz

Já pensou Leila Diniz fazendo 72 anos hoje?
Eu já, por mais difícil que isso possa parecer. Imagino que ela certamente estaria nas redes sociais e nas ruas, seria nossa companheira nas lutas feministas, levantando bandeiras, criando palavras de ordem, sempre destemida e unica. Tenho certeza disso.

Leila Diniz viveu num tempo escuro e mesquinho, onde foi muito perseguida por desafiar as regras impostas às mulheres, pela preconceituosa sociedade brasileira do fim dos anos 60.  As feministas e a esquerda achavam que ela era alienada. A direita conservadora a chamava de prostituta, por pregar, entre outras coisas, o amor livre entre as pessoas.

david zing

Entre seus atos mal vistos na época está a foto em que exibe sua gravidez – da única filha, Janaína, com o cineasta Ruy Guerra – nua como veio ao mundo. Na foto (de David Drew Zingg) está linda e orgulhosa e ao mesmo tempo inocente e sexy. Nada que a gente não veja por aí hoje, até a Beyoncé já fez igual… Ela ia na praia de biquini exibindo o barrigão, e as pessoas ficavam escandalizadas. Dava entrevista na televisão amamentando a filha, e só faltavam bater nela. Falava coisas como “Gosto de trepar. Trepo de manhã, de tarde e de noite” e o mundo caía de vez… Era uma mulher tão parecida com a gente mesmo nos dias de hoje, mas naquela época o país vivia os anos duros e hipócritas da ditadura.

A gota d’água foi uma entrevista que ela deu ao jornal alternativo Pasquim, em 1969, onde disse o que pensava sobre vários assuntos, sendo franca e sincera e usando os mesmos palavrões que todo mundo usava em conversas com amigos. Foi um escândalo absoluto. Na entrevista (que pode ser lida AQUI), ela dizia coisas como “Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo”. Ou então “Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um.

O jornal bateu recorde de vendas e inaugurou o uso de asteriscos e outros símbolos gráficos para substituir os palavrões.

O-Pasquim-1969-e1427307465483

Essa polêmica entrevista foi a justificativa dada pelos militares para instalar no país a censura previa, que trouxe às redações os senhores de terno e caneta na mão, cortando os textos que a gente escrevia. Inclusive, o decreto que instituía a censura foi chamado de Decreto Leila Diniz.

Na mira dos militares, sob a acusação de ter ajudado militantes de esquerda, a atriz se escondeu por um tempo no sítio do apresentador Flávio Cavalcanti e foi lá que recebeu a carta de demissão da Rede Globo, onde trabalhou por 11 anos. A Globo alegava “razões morais” para não renovar o seu contrato.

images

Desempregada e perseguida por todo lado,  Leila recorreu ao teatro de revista, onde estreou com a peça Tem banana na Banda e foi eleita Rainha das Vedetes.

Ali continuou trabalhando até o acidente aéreo da Japan Airlines em que foi uma das vitimas, no dia 14 de junho de 1972.  Leila estava voltando da Austrália, onde recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival Internacional do Filme de Adelaide, pelo seu papel em Mãos Vazias, de Luiz Carlos Lacerda.

Tinha apenas 27 anos, e vai ser lembrada para sempre pela sua alegria, liberdade e irreverência.

Valeu demais, Leila, obrigada por tudo…