Fragmentos

Já ouviu falar de Patativa do Assaré? Pois devia…

Estava me lembrando de uma grande figura humana que tive o imenso prazer de conhecer e que partiu há 14 anos: o poeta popular Patativa do Assaré.

O nome dele era Antônio Gonçalves da Silva, e mal sabia o bêabá, como se diz, mas lia tudo que encontrava pela frente com o único olho que lhe restava. E fazia versos com tamanha perfeição que recebeu seis títulos de doutor Honoris Causa de universidades nordestinas, além de outras homenagens, e foi considerado um dos mais importantes poetas do Ceará, com 13 livros publicados.
 
Sim, ele era cearense. Nasceu, sempre viveu e morreu na cidade de Assaré, a 490km de Fortaleza. Numa casa de pau a pique, limpíssima, com retratos dos filhos, do Padim Padre Cícero e outros santos nas paredes. Teve 9 filhos com a fiel companheira Belinha, com quem esteve casado por 60 anos. Sua morte, 8 anos antes, o deixou arrasado.
O trabalho de Patativa se diferencia dos outros porque é muito oral. Ele sabia de cor todos os seus poemas, e são mais de mil! Imagine que memória prodigiosa… Vê-lo em ação era uma festa: ele recitava os versos usando a voz, a entonação, as pausas, o ritmo e a linguagem corporal, até os pigarros, para enfatizar trechos mais importantes. Um performer.
Suas apresentações se davam nas rádios e em festivais, sempre muito aclamado. Quase um superstar.
Houve uma época em que Patativa foi considerado subversivo, porque criticava com seus versos a dominação econômica sofrida pelos trabalhadores rurais. Ele mesmo se considerava “um lavrador que poetava” por isso sua poesia era comprometida com as lides da terra.
 
Patativa influenciou vários poetas nordestinos e foi parceiro de Luiz Gonzaga. O grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado foi um dos que bebeu na fonte do poeta para compor suas letras.
Em 2009, ano do centenário de seu nascimento, Patativa foi homenageado com o projeto Patativa do Assaré Encanta em Todo Canto. Nele, um caminhão percorreu 95 municípios do Ceará difundindo a poesia popular.
Em 1975 eu estava na equipe do documentário Nordeste – Cordel, Repente, Canção, da cineasta Tânia Quaresma, quando fomos na casa dele para entrevista-lo para o filme. Era a mesma casa onde tinha nascido, no seco sertão cearense. Muita poeira e sol de rachar. Patativa já estava um pouco surdo e não quis que a gente  ligasse o gravador, nem a câmera, assim de cara. Sugeriu uma conversinha pra cada um se conhecer melhor.
Não quero que você escreva porque eu prezo a minha voz. Prezo o que eu digo. Depois que a gente se conhecer, a gente grava.
E assim foi. Depois falou e falou. Ele e dona Belinha.
Isso faz muito tempo, mas me lembro de uma frase que ele disse e que me serve pra vida:
– A gente aprende a ler o mundo e a natureza, antes de aprender a ler as palavras. Só precisa ter olho pra ver e ouvido pra ouvir.
 
 Já dona Belinha era a parte engraçada do casal.
Eles tinham um cachorrinho vira-lata, tipo Baleia, de Vidas Secas, com o nome de Resuvio. Assim mesmo. R.e.s.u.v.i.o. Eu perguntei: porque esse nome, dona Belinha? E ela explicou:
– Resuvio foi o vuRcão mais importante já inventado pelo homem. Ele é danado, e ninguém consegue parar. Assim mesmo é meu cachorro.
Isso tá no filme.
Muito amor por esses brasileiros…
Abaixo, Patativa recitando um poema.