Fragmentos

Memorias

Há muito tempo atrás eu andava por ai. Eu e uma galera enorme que mal  se conhecia. A gente descobria o país de cima a baixo, sem destino, conhecendo pessoas, parando onde achava interessante, dormindo onde dava, conversando muito e ouvindo mais ainda. Geralmente recebia convites pra dormir na casa de alguma pessoa legal, ou trocava serviços por um cama e um banho, em qualquer cantinho se abria o saco de dormir e pronto. Deitar cedo e acordar com o sol… no meu caso, como eu quase sempre escrevia pequenos textos pra algum jornal alternativo, tinha o privilegio de dormir em pequenas pousadas, baratinhas, que pagava com minha diária estabelecida pelo contratante. 
Andei muito mesmo, de ônibus, de trem, de barco, de carona e a pé… Conheci boa parte do Brasil, do Oiapoque ao Chui como se dizia. Minhas posses iam junto comigo, numa mochila grande feita de retalhos: algumas roupas, livros, echarpes, material de higiene, um saco de dormir e só. Isso e mais o que eu vestia, inclusive as joias, era tudo o que eu tinha. E me bastava. Tinha dinheiro suficiente pro necessário, comia frugalmente e meu corpo era jovem, magro, saudável e forte. 
 
O mundo também era mais simples, dava pra andar por ai sem medo de violência, sem pessoas preconceituosas no caminho e principalmente sem a presença assustadora da Aids. A gente namorava e vivia em paz. Paz e Amor era o lema de todos os andarilhos. 
Aprendi muito nessa época e fui imensamente feliz. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Depois voltei pra minha cidade, encontrei uma casa ampla e ventilada e fui morar com um amor que conheci na estrada. Tivemos dois filhos e por causa deles construí um ninho, com comida na hora, sossego e lugar bom pra dormir. Minha casa ficava na praia e a felicidade era plantar, criar as crianças e os cachorros, cantar e escrever. E se amar. A gente se separou três anos depois, eu e ele, mas ainda somos super mega grandes amigos. Amo ele, é o ótimo pai dos meus filhos e avô dos meus netos.
**
Depois disso, de vez em quando recebia viajantes, pessoas tranquilas que vinham de lugares diferentes, e a minha casa virou um pouso acolhedor para os andarilhos. E eles sempre deixavam presentes – um chapéu de feltro, um pano indiano, brinquedos lindos para as crianças, pequenas joias, livros. Minha vida era normal mas bem corrida, trabalhava como freelancer para várias publicações, as crianças iam pra escola e pra creche, a gente tinha tudo que uma pequena família precisa pra viver. Nada de grana sobrando, apenas o necessário. Mas sempre dava pra receber alguém pra lembrar dos velhos tempos.
Foi muito bom. Acho que esses são meus momentos de felicidade completa guardados na memória, aqueles que o Caetano falou.
 
 
Um desses amigos me visitou mais vezes que os outros e dele eu sinto saudades. Seu nome era Enzo, o de longos cabelos, que era italiano e um doce namorado. E isso era tudo o que eu sabia dele. Nem precisava de mais nada. Enzo amava e era amado pelas minhas crianças, conseguia entretê-las por horas com magicas e origamis, era quieto e calado e com ele em casa tudo era silencio e paz

Um dia ele aparecia, ficava uma semana e ia embora, da mesma maneira que chegou.  Meses depois voltava, ficava uma semana e sumia de novo. Até que não voltou mais. Não fui atrás, isso não estava no nosso script. Mas confesso que esperei… Por muito tempo conservei dele o ultimo presente – umas pantalonas brancas com botões nas laterais dos quadris, bem bonita, que pertenceram a algum marinheiro francês. Tinha até a etiqueta da Marine Nationale e tudo. Ele deve ter pegado num desses brechós de roupas para doação, onde tinha muitos “casacos de general”… Naquela época isso era comum demais, até mesmo no Brasil…
De vez em quando me pergunto: por onde andará o Enzo?
 
Alguém já me disse que ele era, na verdade, um anjo que só trouxe luz pra minha vida e eu acredito…