Fragmentos

Ô pai, parabéns pra você, viu?

Hoje é aniversário do meu pai, 89 anos, e eu queria muito que ele ainda estivesse por aqui. Faz tanto tempo que não o vejo, que o seu rosto e jeito de ser vão sumindo devagar da memória, envoltos em névoa… Tudo se embaralha como um sonho, e fico sem saber direito se as coisas aconteceram de verdade ou se é a minha imaginação galopante que está me pregando uma peça, mais uma vez.

Mas de algumas coisas tenho certeza, pois as fotos me mostram. Meu pai era muito jovem, e grande e magro, de cabelos louro escuro e encaracolados e olhos marrom quase preto. Usava óculos sem aro, mas nem sempre. Muitas vezes o vi sem óculos, acho que só colocava mesmo quando as coisas apertavam e ele ficava sem enxergar direito. Preferia sempre roupas de linho, calças largas com um cinto de couro, camisas também de linho mais fino, largas, de mangas curtas. Quando ia pra um lugar mais exigente, botava por cima um paletó do mesmo linho das calças, e pronto, ficava elegante, porque o corpo dele era magro e tudo caía bem. Nunca o vi de gravata. “Gosto não, aperta o pescoço”, escutei de sua boca uma vez. Nos pés preferia sandálias de couro, leves e fresquinhas. O rosto era liso, as vezes com um resto de barba loura. E uma época lembro que usou um bigode, um pouco ralo. Nenhuma joia, quando a minha mãe ainda era viva, lembro de uma aliança no seu dedo, mas depois não. Era um sujeito informal, o meu pai, que ficava pouco tempo em casa. Mas no pouco tempo que estava com a família, estava pra valer.

Sua influência maior em mim foi a leitura. Ele lia bastante, de livros a revistas, de coisas sérias a gibis. Orientou minhas descobertas literárias, começando pelos clássicos, porque eu garota metida a intelectual, misturei tudo e quase fiquei maluca quando, aos 9 anos, descobri que Gregor Samsa acordou um dia e tinha se transformado em uma barata. Pirei mesmo, e ele foi aquela mão amiga que me trouxe de volta à vida real.

Toda semana tinha livro novo lá em casa, que ele lia primeiro, e quando achava que eu podia ler, fazia uma marquinha de lápis na primeira página, um X, que eu buscava na maior ansiedade.  Algumas vezes tinha tempo de discutir a leitura comigo, mas não era sempre. Se eu o procurasse, ele vinha, mas grande parte do tempo estava fora.

Uma de suas grandes contribuições às minhas preferência literárias futuras, foi o amor pela literatura policial e de ficção científica. Ele adorava. Assinava a Misterio Magazine de Ellery Queen, uma revista de contos policiais de tamanho pequeno, de capa mole e papel barato, tipo as pulp fiction americanas, com umas capas chamativas, uma coisa pra mim sensacional que chegava pelo correio. Não era revista em quadrinhos, porque só tinha textos, mas trazia contos, e as vezes até romances, policiais de altíssima qualidade.  De vez em quando vinha com umas antologias também e contos de ficção científica… Foi através dessa revista que eu fiquei conhecendo e amo até hoje varios autores, como Dashiel Hammet, Agatha Cristie, Sherlock Holmes, Arthur Clarke e Isaac Asimov, por exemplo, que escreveram muitos textos lá. A primeira vez que eu li Jorge Luís Borges foi nessa revista, com o patrocínio do meu pai.

Ele tinha uma caneta tinteiro azul escura, da marca Parker, que enchia com a tinta de um vidrinho, para escrever cartas e cartas, enviadas não sei pra quem. Adorava observar aqueles momentos. Achava lindo seus dedos manchados de tinta depois daquela função. Hoje a caneta está comigo, mas não funciona, é apenas uma lembrança amorosa da minha infância.

O meu pai também era discretamente encantado com extra terrestres e discos voadores.  Uma vez ele me falou sobre uma civilização secreta que existia no centro da terra, formada por seres de outros planetas e alguns humanos escolhidos a dedo… e que não era fácil chegar lá, precisava antes encontrar as entradas secretas, espalhadas em vários lugares da terra… tinha uma no Brasil, mas ele não sabia bem onde ficava… Sonhei com essas civilizações muitas e muitas vezes…

Meu pai podia ser várias pessoas diferentes, tudo ao mesmo tempo. Pra cada uma das filhas era o que exatamente ela esperava. Uma arte. O pai da minha irmã, soube há pouco, era o cara que entendia de eletrônica, que desmontava radinhos e ventiladores, e dava aulas de física ao vivo pra ela. Mas esse lado dele eu não conheci. Fico imaginando as artimanhas que ele fazia pra interpretar tantos personagens e pra fugir daquele harém que era a minha casa – uma tia, uma avó e quatro crianças, todas meninas. E ele o único ser humano da espécie masculina, não devia ser fácil… Mas ele tirava de letra, porque era mesmo o filho da minha avó, a minha dinda encantada, de quem tanto já falei aqui.

Mas um dia ele desapareceu. Era 1964, e as pessoas mais interessantes do país desapareciam de repente, sem nem se despedir. Eu tinha 14 anos e sabia disso, já tinha escutado histórias sobre desaparecidos que apareciam, as vezes presos e muitas vezes mortos. Mas não sabia que meu pai podia ser uma dessas pessoas. Não sabia, nenhuma de nós sabia, e seu sumiço foi um susto e um desespero muito grande. A gente tinha conhecimento que ele trabalhava na Justiça do Trabalho, especialmente com casos ligados aos trabalhadores dos engenhos, mas só isso. Em casa não se falava sobre essas coisas, não. Então ficamos em choque, passamos meses procurando desesperadamente, sozinhas ou com a ajuda de outras pessoas… Até detetive a gente contratou. Mas foi em vão. Se naquela época existisse internet, quem sabe, né?

Ele fez muita falta, não só pelo emocional e afetivo, mas também pelo lado econômico, da sobrevivência mesmo. Vizinhos “bem intencionados” enchiam nossos ouvidos, dizendo que ele fugiu da responsabilidade com tantas filhas, que casou de novo, e seiquelá, essas coisas. A gente chorava mas nem dava tempo de pensar nisso, porque a vida real era muito mais dura e estava ali cobrando atitudes… E só muitos anos mais tarde ficamos sabendo de sua passagem pelas prisões, de sua morte… mas ainda não tenho certeza se isso é verdade… não temos nenhuma prova de nada disso, nenhum corpo pra enterrar…

O certo é que minhas irmãs e eu resolvemos solenemente que essa história é pra ser deixada pra trás, porque nada que fizermos vai traze-lo de volta. O nosso pai é o que está em nossas memórias e em nosso coração. Aquele homem tão jovem, as vezes caladão, as vezes mal humorado e que também sabia rir e contar histórias absurdas pra gente sonhar, sim, é esse que conheço e amo e de quem sinto tantas saudades.

Estou sempre escrevendo algumas coisas assim sobre a minha familia que não existe mais, para não me esquecer de onde vim, pra me lembrar de minhas origens, porque as memórias tem a tendência de desaparecer com o tempo… E por me lembrar, tenho certeza de que, se ainda estivesse por aqui, meu pai seria hoje o meu melhor amigo.