Fragmentos

O senhor de todos os sons

Hoje fez um ano que Naná Vasconcelos foi encantar os anjos lá em cima. Ainda sinto falta da pessoa leve e engraçada que ele era, que conhecia tanto de música, que vivia para a música, e não tinha nenhum problema em passar o que sabia pras outras pessoas.

Como todo mundo, conheci Naná dos maravilhosos trabalhos com os jazzistas americanos, com Egberto Gismonti, com o grupo CODONA, tantos lindos discos difíceis de encontrar por aqui. Considerado por varios anos seguidos como o melhor percussionista do mundo, ele estava fora do Brasil ha mais de 10 anos, e isso nos deixava inconformados, a mim e a Ivan, seus fãs, e foi então que resolvemos que já estava na hora de trazê-lo de volta.

Era 1986, e com a ajuda do amigo comum Duncan Lindsay, enfim ele chegou com um show maravilhoso, de nome ‘O Bater do Coração’. E arrasou. Circulamos por quatro cidades, Rio, São Paulo, Recife e Belo Horizonte, onde ele foi tratado como o grande artista que era. Metade da plateia era formada pela nata da música brasileira, Marisa Monte, Caetano Veloso, Milton Nascimento, teatros lotados de expectativa.

Se pra muita gente um show de percussão teria necessariamente tambores, Nana mostrou que não era bem isso. O espetáculo tinha um desenho de luz que incluía também a plateia, o que já era diferente. E sozinho no palco, com seus muitos instrumentos, Nana convidava o publico a escutar o som do próprio coração, a primeira música a entrar na nossa vida, ainda na barriga da mãe.
E, com a iluminação, o teatro virava um útero, vermelho e pulsante, com os espectadores fazendo os sons produzidos pelo nosso corpo vivo, sob seu comando.

Na segunda parte, ele dividia a plateia pela metade, e magicamente estávamos todos dentro de um pequeno barco, embaixo de chuva, num rio amazônico. De um lado, o publico fazia os sons da floresta ao redor, do outro fazia a chuva.
O teatro agora era todo tons de verde e azul. Nana regia no palco e o publico obedecia fazendo sons com a boca, com as mãos, com o corpo.
Foi uma viagem inesquecível, magica, delicada e sedutora. Quem estava la não esquece do deslumbramento.
Uma volta retumbante, mesmo sem alfaias nem tambores, de um artista singular.

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Depois disso ele voltou pra NY, pro trabalho com as crianças surdas na França, pra outros lugares espalhados pelo mundo, e sempre dando um pulo no Brasil. Até que veio de vez.
Fizemos muitas, muitas coisas juntos, viramos amigos bem próximos. depois o Ivan ficou doente, mudamos do Recife e nossa vida de artista e produtor se separou, mas sempre que a gente se encontrava era com muita alegria. Acompanhamos muito de perto seu trabalho com os Maracatus de Pernambuco, com a escola que montou pra crianças de comunidades carentes, com a Noite dos Tambores Silenciosos no carnaval do Recife.

 

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Pra mim o Naná era uma das pessoas mais delicadas e generosas que já conheci. Chegava de leve, sem querer invadir privacidades, e em pouco tempo era amigo intimo… Era também muito orgulhoso de suas raízes negras, do candomblé, do fato de ser pernambucano. E acima de tudo era muito engraçado. Sabia todas as piadas fuleiras do mundo, e sempre tinha um trocadilho, uma tirada, um dito engraçado, que acabava numa enorme gargalhada.

Quando Ivan estava nos seus últimos dias, Nana ligava quase diariamente, de onde estivesse, pra contar piadas bestas e os dois riam, riam… Foi tão importante naquele momento, todo mundo ficava com outro astral.
E eu nem pude retribuir a delicadeza… Até liguei algumas vezes, mas não consegui falar com ele. Isso ainda me dói.

Acho que agora Naná e Ivan se encontraram la em cima, dois velhos amigos, tão parecidos no jeito leve e irônico de levar a vida.
As gargalhadas devem estar ecoando pela galáxia…

Amo você, Nana Vasconcelos.