Fragmentos

Saudades do Tom Jobim.

Há 22 anos Tom Jobim partiu para sempre. A gente sabia da viagem para Nova York porque a saúde dele andava mais ou menos, que ele tinha feito uma cirurgia e tudo tinha corrido muito bem… Então a noticia da morte caiu como uma bomba. Acho que ninguém quis acreditar, assim como nós. Porque era como se o Tom Jobim, o grande maestro, pianista, cantor, arranjador, considerado um dos maiores nome da musica brasileira em todos os tempos, era como se o Tom fosse imortal e indestrutível.

A gente conhecia mesmo o Tom, pessoalmente. Não eramos amigos íntimos, mas fizemos alguns shows com ele e por causa desses shows passamos mais de uma semana juntos, num clima familiar, com filhos dos dois lados, conversando, dando risadas e nos divertindo muito… As pessoas podem pensar: “mas como, você conviveu [por pouquinho que seja] com Tom Jobim e fala disso assim, como se fosse uma coisa normal”? Porque sim, ele era uma pessoa normal, apesar da sua genialidade. Vou contar como foi.

Ivan e eu morávamos no Recife e tínhamos o sonho de trazer o Tom Jobim para algumas apresentações no Nordeste. Ele estava com um show lindo, com a Banda Nova, que tínhamos visto no Rio, e tínhamos certeza de que as pessoas estavam com muita vontade de assistir também. Mas foram muitos meses de conversas com a empresária, para tentar convencê-lo a aceitar a proposta. Por fim ele aceitou, mas só quis fazer o Recife. E num determinado dia, a gente foi pro Rio pra assinar o contrato. Na Churrascaria Plataforma, é claro, depois de um lauto almoço e muitas cervejinhas.

O contrato era longo e detalhado. Tom ia ao Recife levando sua banda inteira, formada por Jaques Morelembaum no cello, Paulo Jobim [filho], no violão, Danilo Caymmi, na flauta, Tião Neto, no baixo elétrico e Paulo Braga, na bateria. E um coral, com as vozes de Ana Jobim [sua mulher], Beth Jobim [filha], Maucha Adnet, Paula Morelembaum [mulher do Jaques) e Simone Caymmi [mulher do Danilo]. Por conta desse arranjo familiar, as crianças também precisavam viajar junto com as familias. E para que elas ficassem bem, era necessário uma babá, pelo menos. A empresária também tinha uma filha muito pequena, que vinha com sua babá.

E assim, passamos a ser uma trupe enorme. Tom + cinco músicos + cinco cantoras + dois técnicos (som e luz) + Gilda [empresária] + três crianças + duas babás + eu + Ivan + nossos dois filhos [João e Francisco], da idade dos filhos do Tom [João, que depois faleceu num acidente, e Maria Luisa]. Total – 23 pessoas. Sem contar a produção. O show seria de 20 a 22 de julho de 1991, de sexta a domingo, no ótimo Teatro Guararapes. A turma chegou pouco mais de uma semana antes. Como se estivessem de férias.

No Recife, a produção providenciou uma programação bastante variada pro pessoal, ida aos pontos mais legais, passeio em Olinda, etc. Mas a mais apreciada foi passear em um enorme saveiro, emprestado por um amigo, com o qual se velejou pela costa pernambucana, parando pra mergulhos nos arrecifes, essas coisas de turista, que a minha cidade sabe cativar muito bem seus visitantes.

Quase todo mundo foi nesses passeios, menos o Tom e a Ana. E eu, que estava preparando as entrevistas com a imprensa, e o Ivan, cuidando da produção. Tom dizia que estava estudando a genealogia de sua família e da família da Ana, ele cismou que parte de sua família era pernambucana. E se dedicava mesmo, lendo livros, escrevendo com aquela sua letrinha… Na maioria das vezes nas mesas de uma churrascaria próxima do hotel, que se parecia com a Plataforma [por isso escolhemos esse hotel rsrs].  Nos intervalos, ele conversava. Na maioria das vezes, comigo… Olha o privilégio…

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Tom falou muito do Rio do seu tempo. Da Lagoa Rodrigo de Freitas,  de aguas limpas e areia branquíssima “como açúcar”, cheia de conchas, e onde todo mundo ia nadar e pegar jacaré. Na Lagoa tinha peixes e ondas altas, dizia ele. E era o local onde o Tom adolescente e seus amigos passavam muito tempo,  namorando e se exibindo para as garotas. Ele dizia que a maior façanha era atravessar a lagoa a nado. Saiam de Ipanema, onde a maioria morava, até a Fonte da Saudade. Ali, depois de conversas e brincadeiras, tomavam um guaraná e voltavam, nadando até a Montenegro [hoje Vinicius de Morais].  Tom falava dos peixes que viviam na Lagoa, se enroscando nas pernas das pessoas. E de todos os pássaros que faziam ninhos nas árvores do entorno. Ele sabia o nome de todos esses pássaros, os gaviões, os mergulhões, os atobás, e outros que nem lembro. Ele falava com tanta paixão e tanto conhecimento dos pássaros e de tudo, que eu ficava de boca aberta, parecia um filme.

Falava também de Nova York, depois do Rio, a cidade que mais gostava. De como tinha liberdade de andar pela rua como um velho senhor, de poder sair até de pijamas como fez uma vez, que ninguém se importava. Isso era muito precioso pra ele…  Dizia que  adorava a língua inglesa, “uma língua redonda e de erres leves”, que só perdia em sonoridade para o português e o russo. E que sentia saudades de quando se usava dois L em algumas palavras do português, do K, do uísque com W, do PH de farmácia, do Y e dos N dobrados em algumas palavras, e por aí vai. Ele achava que a lingua portuguesa era muito mais bonita nessa época.

E a conversa ia looonge, nesse ritmo, cheio de informações novas, cheio de inteligência e historias e piadas… Momentos inesquecíveis pra mim, uma mera plebeia diante de um idolo.

Bom,  do lado de cá, na vida corriqueira dos mortais, tudo corria muito bem. Os ingressos para os três dias do espetáculo acabaram em pouquíssimo tempo. E o Teatro Guararapes é enorme, tem dois mil e oitocentos lugares. E lotou nas tres apresentações. Foram mais de oito mil ingressos vendidos como num passe de mágica. Coisa difícil de acontecer…

A cidade toda sabia da presença deles no hotel e nos lugares turísticos, mas ninguém incomodou o Tom Jobim. Alguns políticos bem que tentaram, mas a gente escondeu o Tom e ele mesmo soube driblar os mais afoitos. Foi lindo demais. O show mais bonito que já fiz na vida.

No video, Tom apresenta a sua banda de forma muito tomjobiniana…

***

Na volta pro Rio, o Tom e a Ana nos deram dois livros autografados. Dois livros grandes, de capa dura, com lindíssimas fotos. Um de nome Ensaio Poético de Tom e Ana Jobim,  que é uma viagem ao pensamento de Tom, através dos olhos de Ana, sua mulher. Livro maravilhoso, onde o projeto gráfico, o texto e a fotografia estão totalmente integrados. As fotos mostram o dia a dia da vida deles nas casas do Rio e Nova York.

O outro, chamado Jardim Botânico do Rio de Janeiro, é um registro poético de um dos espaços mais belos e queridos da cidade do Rio de Janeiro. Visto pelo olhar sensível do fotógrafo Zeka Araujo, da poesia de Tom e do respeito, curiosidade e cumplicidade dos dois pela natureza.

jb

anatom

Depois desse mergulho de imersão no universo jobiniano, ficamos nos falando de vez em quando, especialmente com os musicos, e até hoje tenho por todos um carinho que não sei nem explicar o tamanho.

E é isso. Saudades grandes do Tom e seus charutos cubanos e seus papos intermináveis e deliciosos. Que ele receba meus respeitos e meu amor onde quer que esteja.