Fragmentos

Sem pedir licença…

O vento está fortíssimo, faz musica quando passa por entre as frestas das janelas… É forte, mas não é frio. Ao contrário, deixa sensações agradáveis na pele, cola os vestidos nas pernas e parece criança querendo brincar.
Resolvi seguir o conselho que ouvi tantas vezes da minha avó e abri as janelas e deixei esse vento entrar com tudo, e ele não decepcionou: derrubou algumas vasos de plantas mais leves, fez voar papeis e coisas menores e vasculhou todos os pequenos recantos da casa…

E de repente, da mesma forma que chegou, foi embora. Foi como se estivesse fazendo uma limpeza grande nas energias de cada canto dessa nossa morada.

Minha avó dizia que uma vez por ano os ventos fazem um grande encontro, pra traçar os planos pra humanidade.  São encontros mágicos, claro, que a gente pode sentir em qualquer lugar onde esteja a nossa casa, o nosso lar. A gente ficava com medo da força dos ventos, e ela reunia a criançada pra contar suas histórias. Como essa, do congresso anual dos ventos.

O grande encontro é convocado por Oyá, senhora dos ventos e das tempestades, com a colaboração de outros deuses de mitologias diferentes, o grego Eolo, o japonês Fujin, o nórdico Nord, a bela india Jaci e tantos outros que nem me lembro mais os nomes. Mas ela sabia tudo.

Os participantes eram ventos  de todos os tipos e tamanhos: o Terral, que sopra da Terra pro Mar, carregando bando de insetos com ele; o Mistral, que sopra ao contrario, e que era um ventinho delicioso; o doce Zéfiro, o poderoso Bóreas, a linda Brisa, os estrangeiros Siroco e Moções, que vem da Índia; e até os furiosos Ciclone, Furacão, Tufão, Tornado e Vendaval. Esses são mantidos sob controle, pra não fazerem uma grande besteira.

Todos juntos, eles discutem o que vão fazer naquele ano, as vezes até brigam muito e a gente sente sua presença com esses ventos fortes que chegam muito perto e ninguém entende porque… É isso, são eles, em suas discussões intermináveis… Tem vezes que precisam castigar quem não respeita a natureza, e ai destelham casas, derrubam árvores e causam muitas desgraças em cidades e países, pra mostrar como é grande e poderosa a natureza… As vezes machucam pessoas que não tem nada a ver com aquilo tudo… É sempre assim.

Minha avó sabia muito dessas historias, falava nomes de cada participante da reunião, possivelmente inventava alguns e eu ouvia extasiada. Passava o medo, ficava tudo muito mais real… Depois dessas historias a gente aprendia a abrir as frestas das portas, umas mais outras menos, e o vento virava som, mais grave aqui, mais agudo ali… e era possível até fazer música…

O que eu queria demais mesmo, era poder ver ou mesmo seguir o caminho desses ventos – de onde vêm, pra onde vão, quantas curvas e desenhos abstratos fazem no ar, como se cruzam e se cumprimentam pelo caminho… Ser levada de um lugar pra outro nas asas do vento era o suprassumo do desejo mais oculto, como a Dorothy de O Mágico de Oz…

Eu sempre soube esse congresso de ventos se dava em agosto, vai ver que de repente atrasou (ou adiantou) o cronograma…