Fragmentos

Serge Gainsbourg e a Marselhesa

Nos anos 70, o compositor Serge Gainsbourg tinha uma obsessão: como iria terminar a década de 70 de forma retumbante, da mesma maneira que havia terminado a década de 60? Em 1969, seu dueto com Jane Birkin em “Je T’Aime Moi Non Plus” foi lançado entre o escândalo e as vendas imensas. E Gainsbourg queria, no mínimo, alguma coisa parecida.

O reggae e Bob Marley estavam no auge no começo dos anos 70, não só na Europa, mas no mundo todo, e Gainsbourg gostava muito daquele som.  E isso foi decisivo pra sua escolha: iria gravar um disco de composições próprias em ritmo de reggae. O empresário de Gainsbourg o apresentou a Chris Blackwell, da Island Records, responsável pelo lançamento de Bob Marley, que não só lhe mandou uma caixa de vários  LPs de reggae, como o convidou pra ir gravar seu disco na Jamaica.

E ele foi, claro, mas foi sozinho e sem os músicos. Em Kingston, ficou decidido que iriam contratar os musicos que acompanhavam Bob Marley: a sessão ritmica com Sly Dunbar na bateria e Robbie Shakespeare no baixo, o percussionista Uzziah “Sticky” Thompson e, como backing vocal, as I Three – que incluía Rita Marley, a mulher de Bob. Eles agendaram uma semana do Dynamic Sound Studios, em Kingston e em setembro de 1978, começaram a gravar.

O estúdio ficava numa rua suja. Cabras e galinhas perambulavam sob o sol. O engenheiro de som não estava por ali. Sly e Robbie se encontravam lá dentro, mas as boas-vindas não foram exatamente calorosas. Gainsbourg e o empresário não conseguiam entender o pesado sotaque jamaicano e os músicos tampouco podiam com o inglês-afrancesado dos europeus. Foi só quando souberam que Gainsbourg era o autor de Je T’Aime… Moi Non Plus, que o humor mudou. Sim, os jamaicanos adoravam aquela musica.

Segundo Sly Dunbar: “Serge só cantava e a gente só tocava reggae, e ele não dizia nada. Ele vivia bebendo, mas nunca parecia bêbado,  e fumava bastante. Mas não fumava ganja, só os seus cigarros franceses do maço azul. Ele na verdade não estava cantando, estava mais para um poeta recitando poemas franceses por cima dos ritmos. A gente não sabia sobre o que ele estava cantando”.

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O disco ficou pronto e a musica de trabalho – ou seja, a que ia puxar o disco nos rádios – era Aux Armes Et Caetera. A Marselhesa, na versão reggae de Gainsbourg. O seu pulo do gato. Um reggae gostoso e dançante, com a musica da Marselhesa e a palavrinha ETC substituindo partes da letra que o cantor não lembrava. Na imprensa, Gainsbourg afirmou que a letra do hino era enorme e que quase ninguém sabia mesmo, assim a sua musica foi feita pra facilitar as coisas.

Em março de 1979, quando a música-título estreou em rede nacional, os gritos abafaram completamente o escândalo de “Je T’Aime… Moi Non Plus” de dez anos atrás.  Foi o sucesso mais avassalador de sua carreira, com mais de um milhão de discos vendidos.

A juventude adorou. Mas as autoridades detestaram. Ouvir um bando de rastafáris tocando o hino nacional foi, para a maioria dos franceses, igual a “God Save the Queen” dos Sex Pistols e “Star Spangled Banner” com a guitarra distorcida de Jimi Hendrix. Com o agravante de que, na França, vinha tudo enrolado em um grande e único baseado.

A revista semanal de extrema-direita Je Suis Partout e seu jornalista Michel Droit, acusaram o judeu Gainsbourg de estar criando uma onda de anti semitismo com as suas provocações. As organizações pelos direitos humanos entraram em cena, a grande imprensa resolveu também participar e o clima ficou bastante pesado por mais de um mês, com acusações diárias de todos os lados.

E, apesar de ser desprezado pelos nacionalistas e pela direita, Gainsbourg era cada vez mais amado pelo público jovem. Do mesmo jeito que o punk inglês havia abraçado o reggae, os punks franceses adotaram o reggae de Gainsbourg.

Aos 51 anos, na alvorada de uma nova década, Serge se tornou oficialmente cool.

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Como estava ausente dos palcos franceses há 15 anos, Serge Gainsbourg resolveu aproveitar a fama pra fazer um grande show de lançamento oficial do disco, mandando buscar na Jamaica todos os rastafaris que tocaram com ele. O show de abertura no Le Palace – onde foi gravado e lançado posteriormente um disco ao vivo – foi o mais concorrido de Paris, incluindo celebridades na plateia, das mais às menos esperadas, como Rudolf Nureyev e Roland Barthes. Foram três shows em Paris, completamente lotados, com ingressos vendidos em menos de duas horas.

PARIS, FRANCE - DECEMBER 24: Singer and songwriter Serge Gainsbourg with orchestra on stage during a rehearsal on December 24, 1979 at the Palace night club in Paris, France.  (Photo by Keystone-FranceGamma-Rapho via Getty Images)

Na véspera do show de Estrasburgo, a próxima cidade da excursão, começaram os problemas. Militares paraquedistas ameaçaram usar de  força física, caso a banda cantasse a musica no show. A prefeitura da cidade se omitiu e a tensão se instalou.

No dia seguinte, uma bomba foi jogada no hotel onde os jamaicanos estavam hospedados. Os músicos foram retirados às pressas e dormiram no ônibus que os levaria no dia seguinte a Bruxelas. Serge Gainsbourg resolveu subir ao palco para anunciar o cancelamento do show e fez o maior discurso contra a intolerancia, chamando o publico para cantar o hino, à capela.

Nunca a Marselhesa foi tão bem cantada. Foi a estratégia perfeita, o teatro perfeito. Gainsbourg encerrou com um gesto francês que denota desprezo: agarrou seu cotovelo esquerdo com a mão direita e  jogou o braço acima dos ombros, ou seja, deu uma banana pros milicos…

Os militares, muito tensos, saíram do local em fila, sob vaias e cusparadas dos mais afoitos.

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Isso é a cara dos anos 70…

A música é linda e simpática, eu adoro… já pensou se fizessem isso com o nosso hino?